FHC acusa oposição de banalizar levianamente instrumento do impeachment
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quarta-feira, 26 de maio de 1999
Por Isabel Braga 
Brasília, 27 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso acusou hoje a oposição de estar "levianamente" banalizando o instrumento do impeachment por fatos que são "tranquilos e serenos" e tentar "transformar esse País numa terra sem lei, sem justiça". Foi a primeira manifestação pública depois da publicação, há quatro dias, de notícias apontando o suposto envolvimento dele no favorecimento ao Banco Opportunity durante o processo de privatização do Sistema Telecomunicações Brasileiras (Telebrás). O discurso, de 20 minutos, foi feito durante a solenidade de assinatura da medida provisória (MP) do crédito educativo, no Palácio do Planalto.
O presidente queixou-se da falta de reconhecimento do "imenso esforço que está sendo feito, dia a dia, neste País", não só por ele ou pelos ministros, mas pela "sociedade inteira".
Ele pediu que a sociedade seja capaz de "enfrentar desafios grandes, enraizar a democracia, separar o que é abuso do que é crítica, o que é verdade do que é suspeita, a suspeita que tem fundamento da suspeita que não tem nenhum (fundamento)".
"Tenho certeza que esse é o único caminho que nos levará a evitar no futuro que pessoas de boa-fé, trabalhadores que têm sua vida dedicada, sejam postas no pelourinho." De acordo com Fernando Henrique, o único caminho para essa mudança é a educação e não apenas o crescimento econômico ou a distribuição de renda. "Mais educação inspirada na consciência de uma forte motivação moral que não confunde nunca o interesse particular com o público", disse. Ele afirmou que isso vale tanto para os que exercem funções públicas como aos que as criticam, "que não devem confundir seus interesses particulares
por ventura existentes e justos, com o julgamento dos homens públicos".
Segundo o presidente, setores do País e da oposição estão confundindo o instituto do impeachment com uma transgressão de código de trânsito, com multas a toda hora. "Meu Deus!; há limites da paciência nacional", afirmou, referindo-se, em seguida, à forma "leviana" como vêm sendo tratada as supostas denúncias contra ele. "São fatos tranquilos, serenos, que podem ser julgados, podem até estar errados, mas que não podem ser objetos de utilização pela paixão política e muito menos pela voracidade de mercado que faz esquecer que nós estamos numa nação." O presidente afirmou que não há nada "no governo e na vida que responda ao julgamente tranquilo da história que não tenha fundamento moral. "Eu orgulho-me de dizer que este governo é um governo de moral, que cumpre, dentro do possível, o que diz que é necessário, cumpre seu programa, da maneira mais transparente possível, e sempre que possível." Para o presidente, por ser um governo "que tem na moral seu fundamento", o Executivo não pode "transigir com as leviandades, com as interpretações malévolas, com as insinuações, distorções, seja lá de quem for".
Fernando Henrique argumentou que não é possível aceitar isso, principalmente quando são "aleivosias sobre o presidente da República e quando se tenta banalizar a apropriação da privacidade de alguém simplesmente para fazer barulho ou como ensejo para banalizar um instrumento constitucional da maior respeitabilidade". FHC afirmou ter satisfação de dizer que chega aos 68 anos (que completará no dia 18) sem qualquer suspeição sobre a conduta pública dele.
"Nunca, friso, nunca tive qualquer coisa, mais remota, que pusesse em suspeição algum interesse no exercício do cargo público que não fosse o do povo, o do meu País, nunca", insistiu. "Com esta mesma tranquilidade, acho que temos de levar adiante as transformações do Brasil, sem temer, sem confundir as coisas." O presidente disse esperar que a educação
que vem proporcionando no governo, possa "formar cidadão que tenha realmente compromisso moral mais forte" daquele que existe hoje.
Ao fazer referência direta às acusações de ter privilegiado o Opportunity, Fernando Henrique disse: "Até mesmo quando, levianamente, alguns imaginam que o governo ter-se-á embrenhado em assuntos privados, quando, na verdade, o governo estava defendendo o interesse público, defendendo com energia", frisou, recebendo aplausos dos que estavam na cerimônia e com mais ênfase dos tucanos. "Estamos aqui numa nação e não num mercado e é bom que se diga que essa é uma preocupação permanente do governo."
O presidente também criticou a impresa. Falando como professor de ciências sociais, Fernando Henrique afirmou que reprovaria uma aluno que tratasse o suposto envolvimento dele no favorecimento ao Opportunity da forma como foi tratado pela imprensa.
Sem citar diretamente a imprensa, Fernando Henrique acusou os jornalistas de mostrar uma parte da questão, de não colocar a transcrição dos diálogos telefônicos grampeados dentro do contexto e de usar, de "forma desproporcionalmente grande", um fragmento do assunto. "Se algum aluno meu fizesse isso, eu reprovaria, por ser incompetente, ou imoral ou não ter a capacidade de entender do que se trata", afirmou. "Mas, como não sou mais professor, sou apenas presidente da República, eu quase sempre calo." Segundo o presidente, quando ele se cala, não é por consentir, concordar ou temer as acusações que lhe são feitas. "Calo porque sei a responsabilidade do meu cargo, o cargo que o povo me pôs por duas vezes já", justificou. "Calo porque é mais fácil vociferar do que atuar, e nós estamos atuando, transformando, fazendo o Brasil progredir."


