Rio, 20 (AE) - A Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) começa a divulgar em abril o primeiro cálculo do núcleo da inflação no País. O núcleo mostrará o comportamento dos preços sem levar em conta variações de grande impacto no custo de vida, mas de efeito temporário, e servirá para indicar a tendência do comportamento da inflação.
O vice-presidente da FGV-RJ, Carlos Ivan Simonsen Leal, afirmou que o núcleo vai permitir um cálculo mais aperfeiçoado dos juros a longo prazo. Com isso, previu, é possível que as empresas tenham mais condições de se financiar a longo prazo por meio de lançamento de debêntures, e não só de empréstimos com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) - a única opção existente hoje, na prática.
O vice-presidente da FGV-RJ ressalvou que o núcleo não pode ser usado para medir a inflação, que continuará a ser acompanhada pelo Índice Geral de Preços (IGP), e também não pode ser adotado para correção de contratos - uma das funções do IGP. O núcleo da inflação será calculado apenas com base nos produtos usados para a medição do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), que mede o custo de vida no varejo e é um dos três usados na formação do IGP.
Choques de oferta - O chefe do Centro de Estudos de Preços da FGV-RJ, Paulo Sidney Melo Cota, explicou que o núcleo medirá apenas a variação dos preços por influência da quantidade de dinheiro em circulação no País. Ele não levará em conta o efeito dos choques de oferta de produtos, que podem provocar grandes altas ou quedas na sua cotação.
O diretor do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV-RJ, Antônio Carlos Porto Gonçalves, afirmou que mesmo se o núcleo não for levado diretamente pelo governo para fixar os juros, terá influência indireta ao contribuir para as expectativas dos consumidores, comerciantes e empresas. Porto Gonçalves lembrou que em 1999 a desvalorização provocou um aumento da inflação que obrigou a alta "excessivamente dura" dos juros para prevenir que o custo de vida continuasse a subir. "O núcleo permite que o Banco Central (BC) seja mais leniente ao fixar os juros", analisou.
Em países como os Estados Unidos e a Inglaterra, o núcleo é calculado sempre com a exclusão dos mesmos produtos, quando sofrem reajustes temporários. Assim, quando o inverno aumenta o consumo dos combustíveis nos EUA, a alta do preço do produto não é levada em conta. No número calculado pela FGV-RJ, não haverá um grupo fixo de preços para ser excluído, porque não há no Brasil aumentos tradicionais, que podem ser previstos com exatidão.
Relação direta - Para colocar o sistema em prática, a FGV-RJ calculou o núcleo de inflação do IPC desde 1996, explicou Simonsen Leal. Ele afirmou que foi constatada uma relação direta entre o número e a quantidade de dinheiro em poder do público, aplicada nos depósitos a prazo e em alguns títulos federais. Essa relação ainda tem de ser confirmada, ressalvou, porque ela pode ter sido causada pela política de câmbio fixo que vigorou até o início do ano passado.

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