Umuarama - Raquel, um feto no quinto mês e meio de gestação, é o primeiro bebê brasileiro a ser operado ainda dentro do útero. A cirurgia inédita foi realizada no início da semana em São Paulo por uma equipe da Escola Paulista de Medicina, da qual faz parte o obstetra paranaense Carlos Gilberto Almodim. Até agora, apenas os Estados Unidos dominavam as técnicas para abrir o útero e corrigir anomalias no feto dentro da barriga da mãe. A medicina fetal brasileira já utiliza fetoscopia, mas apenas algumas anomalias podem ser corrigidas sem aceso direto ao feto. ''Foi uma cirurgia emocionante, porque até agora o útero era um ambiente proibido para os médicos. Poucos ousaram invadir esse ambiente sem provocar sérias complicações para o feto e a mãe'', relata Almodim, que trabalha com pesquisas na área de genética e reprodução humana em Maringá e Umuarama. Para trazer a cirurgia fetal para o Brasil, ele se aliou à equipe da Escola Paulista de Medicina.
Segundo Almodim, Raquel era portadora de meningomielocele, um defeito na parte inferior da coluna, também conhecida como espinha bífida. A pele não havia se fechado e a inervação da coluna estava exposta ao líquido amniótico. Isto poderia causar hidrocefalia (acúmulo de líquido no cérebro), além de paralisia nas pernas, bexiga e intestino. A mãe, a arrumadeira paulista Edinei Jesus dos Santos, 26 anos, já é mãe de dois filhos. Raquel será a primeira filha de Edinei com seu segundo marido, o soldador Joatan Leal Miranda, 35 anos. Quando recebeu o diagnóstico, um mês atrás, o casal foi orientado a fazer um aborto, mas decidiu procurar o serviço de medicina fetal na Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Lá, soube da nova técnica e concordou em submeter à cirurgia experimental.
Para trazer a nova técnica, Almodim acompanhou durante quatros anos o médico Joseph Bruner, idealizador da cirurgia e professor na Universidade de Vanderbilt, em Nashiville (EUA). A equipe brasileira, chefiada por Carlos Gilberto Almodim, Antonio Fernandes Moroni (chefe da pós-graduação em Obstetrícia da EMP) e Sérgio Cavaleiro (do setor de neurocirurgia pediátrica da EPM) treinou durante dois anos para iniciar as operações. Segundo o obstetra, a cirurgia não é demorada, mas exige movimentos precisos e alternados dos seis médicos envolvidos na operação: dois obstetras, dois neurocirurgiões e dois auxiliares. ''É preciso trabalhar como uma orquestra. Ninguém pode errar e, por isso, todos os movimentos da operação tiveram de ser ensaiados durante um longo tempo'', contou o médico.
A parte mais delicada da cirurgia, segundo o obstetra, é a abertura e fechamento do útero. O líquido amniótico é recolhido e armazenado em ambiente próprio para ser recolocado depois. As incisões na bolsa amniótica e no útero precisam ser bem vendadas para garantir a proteção do feto e a continuidade da gravidez. Para isso, os médicos combinam duas suturas especiais e usam uma cola biológica. Entre as anomalias que podem ser corrigidas através da cirurgia intra-uterina estão a hidrocefalia, espinha bífida (que era o caso de Raquel) e vários tipos de tumores fetais.
O problema de Raquel foi corrigido com sucesso. Antes, as chances de ela nascer com hidrocefalia eram de 90%. Agora, é de apenas 10%. O risco de paralisia da parte inferior do corpo também existe ainda, mas ela tem grandes chances de nascer 100% saudável e os médicos estão torcendo para isso. O parto deverá acontecer daqui a oito ou 10 semanas.

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