Fetagri disputa assentamento com MST
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quarta-feira, 15 de outubro de 1997
Agência Estado Campo Grande 
Dois grupos de sem-terra disputam vagas em assentamentos agrícolas no Mato Grosso do Sul. Embora os líderes neguem a concorrência, ontem, ela ficou evidente. Centro e vinte famílias - ligadas à Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri) -, ocuparam durante a madrugada a Fazenda Lagoa Bonita, localizada no distrito de Itahum, município de Dourados, na região sul do Estado, a 250 quilômetros de Campo Grande. A fazenda tem quase quatro mil hectares.
A propriedade rural, juntamente com a Fazenda Floresta Branca, situada em Eldorado, no extremo-sul, Divisa com o Paraguai - com mais de cinco mil hectares -, era destinada aos sem-terra ligados o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST-MS), como parte do acordo para que as 2,2 mil famílias quem ocupam há dois meses a Fazenda Santo Antônio, em Itaquiraí - a 470 quilômetros da capital - deixassem pacificamente a área.
A negociação foi fechada segunda-feira, na sede do Incra em Campo Grande. Na ocasião, os sem-terra ligados ao MST não concordaram em ceder 50% das duas fazendas, que somam 9,7 mil hectares, aos sem-terra coordenados pela Fetagri. Durante o encontro, o superintendente-adjunto do Incra, Paulo Afonso Condé, prometeu que os técnicos do órgão fariam novo recadastramento entre os sem-terra que ocupam a fazenda em Itaquiraí para saber quais famílias acampadas mais antigas deveriam ser assentadas na Lagoa Bonita e Floresta Branca.
Com a ocupação ocorrida ontem o recadastramento fica prejudicado. A atitude revoltou os sem-terra acampados na Santo Antônio. De acordo com os líderes na área, as famílias vão continuar ocupando o imóvel, onde treinam com ferramentas agrícolas e armas de fogo, principalmente revólveres e espingardas, para resistirem em caso de despejo. Os sem-terra abriram até trincheiras e meninos de 10 a 12 anos também participam dos treinos diários.
Existem, pelo menos, seis boletins de ocorrência registrados na Delegacia de Polícia Civil de Naviraí, comarca de Itaquiraí, contra os invasores da fazenda. Segundo as denúncias, os sem-terra teriam roubado 731 mourões de eucaliptos, matado 50 capivaras, dez veados e dez catetos, furtado 1.040 metros quadrados de lona plástica que cobriam a silagem de cana, utilizada na alimentação do gado confinado na Santo Antônio e ainda roubaram 104 mourões de aroeiras.
Empregados da fazenda afirmaram ter encontrado dois Fuscas abandonados carregados com pedaços de bois cobertos por lona plástica e três rezes atingidas por disparos de armas de fogo. Estes animais tiveram de ser sacrificadas, disseram. Ainda este mês, no dia 2, de acordo com os funcionários, outros três bois foram baleados e, no dia 6 os sem-terra teriam matado 20 bois de uma única vez e atirado em outros quatro animais.
A Coordenação Regional do MST, com sede em Campo Grande, continua afirmando que existe exagero nas queixas prestadas para a polícia, mas reconhece que aconteceram abates de alguns animais. Os coordenadores afirmaram que essas notícias não são importantes diante do clima de guerra que existe em Itaquiraí, onde o prefeito local, Renato Tonelli, decretou estado de emergência, devido à movimentação dos sem-terra.


