Vitória, 01 (AE) - Dez meses depois de eleito no primeiro turno, com 723 mil votos, o governador do Espírito Santo, José Ignácio Ferreira (PSDB), trava uma disputa por espaço político com o presidente da Assembléia Legislativa, José Carlos Gratz (PFL), que formalmente é aliado dele, mas, nos bastidores, circula a informação de que é quem comanda o Estado.
Ex-banqueiro do bicho, com uma extensa ficha de antecedentes criminais - na qual está incluído até um indiciamento pela Polícia Federal (PF) por formação de quadrilha e homicído -, Gratz controla 27 dos 30 deputados estaduais, tem influência no Tribunal de Contas do Estado (TCE) e ainda sobre boa parte dos desembargadores do Tribunal de Justiça (TJ), entre eles, o presidente do órgão, Wellington da Costa Citty.
"Assim como os ex-governadores Albuíno Azeredo e Vitor Buaiz, José Ignácio poderá virar refém do Gratz", alerta o deputado federal Max Mauro (PTB), que administrou o Estado entre 1986 e 1989, e é inimigo do deputado.
Envolvido num escândalo de dívidas de campanha e pressionado a pagar precatórios que somam R$ 1,6 bilhão, o governador está fragilizado polticamente, mas garante que ainda mantém o controle do Estado.
"Na verdade, quando cheguei ao governo, a composição da Assembléia já estava parcialmente mantida, mas, em hipótese alguma, me vergo para manter a governabilidade", garante Ferreira.
As palavras do governador, porém, são relativas. O dono das chaves do cofre do Estado, o secretário de Fazenda, José Carlos Fonseca Junior, é aliado político de Gratz, assim como o chefe da Casa Civil, José Tasso Andrade, presidente estadual do PFL. O episódio da operação casada de empréstimo que envolveu o governador, o Banco do Estado do Espírito Santo (Banestes) e duas empresas paulistas para cobrir um rombo de R$ 2,6 milhões na conta de campanha de Ferreira é um exemplo do poder de fogo que detém o presidente da Assembléia Legislativa.
Gratz não esconde que há cinco meses tinha em mãos os extratos bancários do governador com toda a operação, que só veio a público há duas semanas. "Tenho tudo isso em miúdos", diz. Eleito governador, Ferreira conseguiu do Banestes os R$ 2 6 milhões para cobrir a conta de campanha. O saldo da conta pessoal dele, por sua vez, foi coberto pelas empreiteiras paulistas HGM e CEC, que, para isso, obtiveram outro empréstimo do Banestes. O banco, porém, garante que as empresas saldaram as dívidas e que operação deu lucro de R$ 1,3 milhão em juros.
Segundo assessores próximos do governador, desde abril, Gratz vinha pressionando Ferreira para demitir o secretário de Segurança Pública, José Resende, que havia denunciado uma fraude no Super Bingão Real - empresa de bingo que faz sorteios pela tevê, sob licença das federações esportivas capixabas.
Um dos três sócios do Bingão, o empresário Francisco Marcelo de Souza Queiroga, denunciado pela Justiça, seria um dos testas-de-ferro de Gratz. Irritado com o caso, o deputado teria ameaçado o governador de vazar os documentos sobre o empréstimo do Banestes, caso Ferreira não exonerasse o secretário. "Isso nunca aconteceu porque não sou sócio dessa empresa", garante o presidente da Assembléia. O governador também nega o assunto.
Gratz é, no entanto, uma figura polêmica dentro da vida política capixaba. Em outubro de 1989, ele foi preso, logo depois que policiais federais estouraram a principal fortaleza do jogo do bicho de Gratz.
Na época, a polícia descobriu diversas operações bancárias que ligavam Gratz a outro bicheiro, Ailton Guimarães Rosa, o "Capitão Guimarães", do Rio.
Um ano depois, o atual presidente da Assembléia entrava para a política, como deputado estadual, conseguindo imunidade parlamentar. O processo de contravenção penal aberto contra Gratz e os outros três sócios dele foi arquivado em 1994 por prescrição.
Na semana passada, o deputado viu o nome novamente envolvido num escândalo. Em depoimento em juízo, o empresário paulista Fraklin Plácido Campozana disse que pagou propina a um delegado para liberar máquinas de videobingo a mando do deputado. Campozana e Gratz são sócios de uma casa de bingo na zona norte de Vitória.
"Para mim, isso não passa de papel higiênico porque tenho todas as certidões negativas das máquinas comigo", rebate o deputado. Gratz também conta com a ajuda do TJ. O processo com a denúncia, feita pela 7ª Vara Criminal de Vitória, está mesa do presidente do TJ há quase dois meses.
Citty, aliás, não esconde a estreita amizade com o chefe do Poder Legislativo local. Em entrevista à revista "Vida Vitória", em fevereiro, o desembargador diz que considera o deputado "irmão". "Com Gratz, eu tenho uma relação especial"
afirma. "Se houver necessidade, estou pronto para estar do lado dele." A afinidade do deputado com magistrados capixabas vai mais além.
Durante a campanha eleitoral de 1998, a Associação dos Magistrados do Espírito Santo, que reúne 320 juízes do Estado, distribuiu um ofício aos filiados, chamando a atenção para os deputados que, "nesta legislatura (94-98) sempre se posicionaram favoráveis aos nossos pleitos", entre os quais Gratz.
O presidente da entidade, juiz Jorge Góes, porém, nega que o ofício teve qualquer conotação política. "Não pedimos voto a ninguém", afirma.
Na mesma campanha, o deputado foi denunciado pela Procuradoria-Geral Eleitoral por uso indevido de R$ 511 mil de verbas de publicidade da Assembléia para promoção pessoal.

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