Fernando Henrique critica protecionismo de ricos em comemoração do BID
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sábado, 04 de dezembro de 1999
Por Wilson Tosta e Murilo Fiúza de Melo 
Petrópolis, RJ, 04 (AE) - A comemoração, hoje, dos 40 anos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que reuniu Chefes de Estado de países americanos, se transformou numa extensão da polêmica comercial entre o Brasil e os Estados Unidos. O presidente Fernando Henrique Cardoso saudou o aniversário do banco com críticas ao protecionismo dos países ricos e reivindicando regras mais justas para o comércio internacional, que favoreçam os mais pobres.
Num discurso sobre a necessidade de abertura comercial, Fernando Henrique disse que o Brasil deixou muito clara sua posição nas negociações da reunião preparatória para a Rodada do Milêmio da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Seattle (EUA). O pronunciamento foi acompanhado pelo secretário do Tesouro norte-americano, Lawrence Summers, que também fez referência às relações comerciais. "Os mercados internacionais não são tão estáveis como gostaríamos", disse o norte-americano.
Fernando Henrique foi enfático. "(O país) deixou claro que o sistema multilateral de comércio precisa escolher entre duas alternativas: o regime de discriminação, que protege os ricos e penaliza os pobres, ou um caminho de construção de regras efetivamente universais que permitam também aos países menos desenvolvidos o acesso a mercados em condições justas."
Antes, em café da manhã no Palácio Rio Negro, Summers e Fernando Henrique haviam conversado informalmente sobre as declarações do presidente norte-americano Bill Clinton feitas quarta-feira na reunião da OMC. Clinton abordara a questão do trabalho infantil no Brasil, interpretada como justificativa para a imposição de barreiras comerciais a produtos brasileiros. No dia seguinte, Summers endossou as declarações de Clinton.
A conversa entre Fernando Henrique e Summer foi relatada
mais tarde, pelo assessor diplomático da Presidência, Eduardo Santos. Segundo ele, o presidente brasileiro defendeu o fim das barreiras comerciais como a saída para acabar com o trabalho infantil no País. Santos disse que o assunto veio à tona "naturalmente". "O presidente explicou com algum detalhe ao secretário Summers os programas sociais que têm contribuído para reduzir de forma sensível o trabalho infantil, que o coloca hoje concentrado na zona rural", afirmou Santos.
O assessor disse que a reunião "foi apenas informativa" e que Summer pareceu entender as explicações de Fernando Henrique. Segundo ele, os dois discutiram ainda a situação político-econômica da América Latina, o ajuste fiscal do governo brasileiro e projetos de desenvolvimento social. Na cerimônia no Hotel Quitandinha, onde a criação do BID começou a ser idealizada, em 1954, Summers disse que a função essencial do banco deve ser a de apoiar o livre fluxo de capitais.
"Tem sido dito que o século 20 foi o século americano"
disse o secretário do Tesouro. "Tenho certeza de que, com a ajuda do BID, o século 21 será o das Américas." As declarações foram entendidas pelos presentes como uma alusão à formação da área de Livre Comércio das Américas (Alca).
O presidente Fernando Henrique já havia falado, em seu discurso, sobre a importância do bloco econômico. "Não podemos hoje imaginar o crescimento econômico sustentado sem a perspectiva de fortalecimento dos diversos esquemas que deram realidade à palavra integração", disse ele. "Basta ver os avanços do Mercosul, da comunidade andina, do mercado comum centro-americano, do Caricon (organização comercial entre os países do Caribe), do Nafta (região de livre comércio da América do Norte)." Segundo ele, "o próprio fato de que hoje se possa pensar em uma área de Livre Comércio das Américas (Alca) dá uma boa medida de até que ponto a integração se tornou inseparável do desenvolvimento". O presidente afirmou ainda que é necessário ter um portfólio de projetos para a América Latina e Caribe elaborados em comum pelos países da região em parceria com o BID.
O presidente do Peru, Alberto Fujimori, também foi duro em relação às medidas protecrionistas. "Os países pobres e os em via de desenvolvimento acertaram programas de ajuste, reformas internas, a reestruturação do papel do Estado e participação na economia de livre mercado", disse. "Respeitaram os princípios dessa economia mas, no caminho, encontraram alguns países em desenvolvimento que voltaram a estabelecer injustos e inoportunos mecanismos de proteção à produção agropecuária em contradição com os postulados da chamada globalização." E encerrou seu pronunciamento lembrando os violentos protestos em Seattle que, segundo ele, "nos eximem de maiores comentários".


