Fenômeno La Niña deve manter-se em atividade até maio
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quinta-feira, 09 de março de 2000
Por Júlio Ottoboni 
São José dos Campos, SP, 10 (AE) - A anomalia climática La Niña está tendo uma de suas edições mais longas dos últimos 50 anos. A previsão é de que sua atividade se encerre em maio, segundo os principais institutos climáticos do mundo, inclusive o Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (Cptec), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de São José dos Campos. O fenômeno que resfria as águas do Oceano Pacífico está em atividade há dois anos, mas foi considerado de magnitude média. "O La Niña está em declínio desde fevereiro", explicou o chefe do Cptec, Carlos Nobre.
Na última metade deste século ocorreram oito eventos La Niña, sendo que apenas três deles duraram cerca de dois anos. Os demais seguiram a tendência e se mantiveram em atividade por um ano. Esse fenômeno provoca secas no sul do País e estimula um maior índice pluviométrico no nordeste e na Amazônia no período das chuvas. Por trazer efeitos totalmente opostos ao El Niño, esse processo de resfriamento das águas do Oceano Pacífico recebeu denominação feminina.
A temperatura da superfície do mar no último mês ficou entre 22 e 24 graus centígrados, cerca de dois pontos abaixo das marcas normais, na área do Pacífico Equatorial Central. A média para esse período do ano é de 24 a 26 graus. Já a leste do oceano, na região que banha a América do Sul, a variação térmica foi de menos meio grau. Os modelos matemáticos dos institutos de meteorologia mostravam que o La Niña que começou em maio de 1998 acabaria em meados do ano seguinte.
Segundo Nobre, entre abril e junho de 1999 houve um processo de intensificação das baixas de temperatura no oceano, conhecido como repique do La Niña. Isto trouxe uma diminuição de um grau nas médias térmicas e deu uma sobrevida a mais para o fenômeno. O ápice aconteceu em janeiro deste ano, quando as águas do Pacífico ficaram meio grau abaixo da marca registrada no mesmo período do ano passado. O que causou surpresa na comunidade científica foi a rápida transição da última edição do El Niño para esse La Niña. O intervalo entre os dois fenômenos foi de apenas dois meses, apesar de os pesquisadores terem detectado que haveria uma alteração de quadro no Pacífico.
Nobre lembra que uma onda atmosférica conhecida como Madden-Julian passou sobre o oceano trazendo muita chuva e provocou uma antecipação no resfriamento das águas na porção leste equatorial. "Essas ondas são imprevisíveis dentro dos modelos meteorológicos, por isso, pegou todo mundo de surpresa"
comentou. A consequência disto foi um início prematuro do La Niña, que ganhou cerca de cinco meses a mais de atividade. Outros duas anomalias semelhantes, só que com atividade superior a esta, ocorreram em 1954/55 e no biênio 1973/74.
Os efeitos deste fenômeno no continente sempre são em menor escala do que os provocados pelo El Niño. Esses fenômenos climáticas nunca ocorrem simultaneamente. "Até o momento não temos nenhum indicativo que haverá outro El Niño", explicou o cientista do Inpe.


