Curitiba – A publicação de mais de 82 mil tweets sobre o #PrimeiroAssedio em apenas uma semana trouxe à tona um lado da violência que a sociedade preferia não enxergar. A avaliação é da jornalista Juliana de Faria, fundadora do projeto Think Olga, que desde 2013 busca empoderar mulheres por meio da informação. Ela esteve ontem, ao lado de outras feministas, em um painel sobre mídia e gênero, realizado durante a I Jornada Nacional Mulher Viver sem Violência, em Curitiba. "Tinham duvidado da minha história quando contei que foi aos 11 anos. Trouxe isso e falei: ‘olha como acontece; e é muito mais frequente do que a gente imagina’".
A iniciativa surgiu depois que uma menina de 12 anos, que participa do programa de televisão MasterChef Júnior, foi vítima de comentários de teor sexual na internet. "O assédio está enraizado na sociedade. Digo que meu corpo me traiu. Fui assediada só porque, de repente, tinha peito e bunda", lembrou. "É muito surreal pensar que nós, mulheres, não temos o menor consentimento ou poder de iniciar a nossa sexualidade. Somos iniciadas num ritual que é bárbaro e muito cruel", completou. Levantamento da Olga, feito a partir de 3.111 histórias compartilhadas, mostrou que a idade média do primeiro assédio é de 9,7 anos.
Para Juliana, o debate em torno do tema amadureceu desde o lançamento da campanha Chega de Fiu Fiu, também do coletivo, há dois anos. "No começo, era tratado como um mimimi, uma bobagem, e não só por trolls da internet, mas pela própria imprensa. Há muita gente chata, que ainda fala que sou mal comida e que preciso me resolver, porém, melhorou muito". Mulheres que assistiam ao painel se emocionaram com o depoimento. "Hoje você conseguiu fazer o que eu em dez anos de terapia ou mais não tinha dado conta, que foi me permitir falar em público sobre o meu primeiro assédio. Obrigada", disse uma delas.

LIVRE DE ABUSO


A estudante de Jornalismo Bruna de Lara, de 20 anos, natural do Rio de Janeiro, também fez de sua experiência pessoal uma bandeira de luta. Ela é a criadora da comunidade Livre de Abuso, lançada no dia 6 de junho e que já conta com mais de 26 mil curtidas no Facebook. A ideia é ajudar as vítimas a reconhecer os sinais desse tipo de violência e a lidar com eles. "Eu tive um relacionamento abusivo quando era adolescente, mas só fui me dar conta quase três anos depois, ao encontrar um vídeo na internet falando sobre o assunto".
Foi a partir do comentário de uma colega em um post que Bruna percebeu o quanto o problema era recorrente. "Fiquei extremamente revoltada de saber que eu tinha passado por aquilo, que uma conhecida minha do ensino médio também, e que nós duas demoramos tanto tempo (para sair). Deixei de lado a minha vontade de não pensar sobre esse assunto e falei: ‘alguém precisa fazer alguma coisa e eu posso ser essa pessoa".

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