FEITO PARA AMAR - ÓDIO, INIMIGO MORTAL DO CORAÇÃO
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sábado, 25 de setembro de 2004
Phoenix Finardi<br>Reportagem Local 
Além do cigarro, do álcool, do sedentarismo e da gordura, o coração tem um outro inimigo terrível: o ódio. A afirmação é de um médico cardiologista, o professor José Eduardo de Siqueira. ''Parece que a medicina deu uma volta enorme para retornar ao ponto de origem, encarando o coração como um órgão profundamente afetado pela emoção'', diz.
Quando Hipócrates, o pai da medicina, afirmou que a alma e os sentimentos estavam no cérebro, o coração perdeu o ''status'' de centro da vida. Historicamente, em quase todas as culturas, o coração sempre foi o centro das emoções humanas. ''A própria Bíblia ajudou a disseminar essa imagem. No livro de Ezequiel, Deus diz que tiraria do nosso peito o coração de pedra e nos daria um coração de carne. No Novo Testamento Jesus nos diz para aprender com ele, que é manso e humilde de coração'', aponta Siqueira.
Um antigo documento egípcio chamado Papiro de Amon mostra o desenho de um julgamento. Na balança, um coração. ''Na cerimônia de remoção dos órgãos para a mumificação, os egípcios deixavam o coração; eles entendiam que era através dele que a pessoa se unia à outra vida'', explica o cardiologista. Entre os gregos também era assim. Platão acreditava que a alma ficava dentro do coração. Algumas tribos indígenas que praticavam o canibalismo comiam o coração das vítimas para adquirir sua força interior.
Os orientais enxergam o coração como algo ainda mais complexo. ''Dos sete chacras do corpo humano, o do coração é justamente aquele que equilibra o intelecto com a paixão e o prazer'', destaca Siqueira.
Foi no século XIX que a medicina dissecou o homem e descobriu que o coração era apenas um músculo, pesando menos de um quilo, encarregado de bombear sangue para o resto do organismo. Depois disso, parecia ter ficado muito mais simples cuidar de doenças cardíacas. O homem constatou que podia operar o coração, colar (até com super bonder), colocar molas dentro dele e ainda transplantá-lo de uma pessoa para outra. No entanto, hoje em dia o coração mata muito mais gente do que antigamente, apesar de toda a tecnologia e informação disponíveis. Dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia mostram que no Brasil cerca de 600 mil pessoas convivem com algum tipo de doença cardíaca. Este ano, 120 mil brasileiros vão morrer por causa de infartos.
''O coração tem razões que a própria razão desconhece'', afirmava o filósofo Blaise Pascal. Na busca de respostas para entender uma das principais causas de morte da atualidade, os cientistas começam a perceber que os antigos mitos sobre o coração têm muito mais fundamento do que se desconfiava. ''Experiências feitas no início do século com pessoas infartadas demonstraram que os batimentos cardíacos variam até mesmo de acordo com os assuntos das conversas; temas como a morte e doenças provocam taquicardia na maioria dos casos'', diz Siqueira. Assim, surgiu uma nova ciência com um nome complicado: psiconeuroimunoendocrinologia. ''A saúde emocional afeta o coração porque as respostas químicas do organismo humano são alteradas pelas emoções'', explica o cardiologista. ''De todas as emoções que conhecemos, a que mais prejudica o coração é o ódio'', afirma.
No seu livro ''O coração do homem'', Eric Fromm garante que quem tem afeto se protege contra doenças. Siqueira também acredita nisso. ''O amor constrói, quimicamente. Por isso, quando as religiões falam para cultivar o amor, estão na verdade ensinando a gente a ter saúde'', diz. Siqueira também fala de estudos atuais que demonstram que pessoas submetidas a perdas como a morte de um ser amado, divórcio e doenças são mais propensas a desenvolver doenças cardíacas. ''Buda já dizia que o ódio é como um carvão em brasa, que queima a própria mão que o segura. O inverso também vale. Minha recomendação para quem quer ter um coração saudável é: procure alcançar o outro com afeto, acolha as pessoas''.


