Feira do Cincão é shopping ao ar livre
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domingo, 09 de fevereiro de 2003
Karla Matida<br>Reportagem Local 
''Já reparou como não tem laranja nessa feira?'', indignava-se ontem o fotógrafo Genésio Teodoro da Silva. Faz uns dois meses que ele, domingo sim, domingo não, percorre toda a extensão da feira dos Cinco Conjuntos (zona norte) que toma boa parte da Avenida Saul Elkind , atrás das tais laranjas e não encontra. ''Em compensação tem muitos cintos e CDs'', dispara. ''Isso é coisa para jovens. As donas-de-casa querem frutas e verduras'', completa o fotógrafo.
Saudoso da época em que feira de domingo era lugar de se comprar hortifrutigranjeiros para a semana inteira, Genésio segue reclamando. Mas a verdade é que na quilométrica feira do Cincão, ainda tem muito espaço para as bancas de batatas, cebolas, cenouras, ovos, tomates. O diferencial é que o tradicional ganhou toques modernos de um shopping a céu aberto. O que não faltam são opções em roupas, sapatos, material escolar, óculos escuros e até travesseiros porque, afinal de contas, domingo é mesmo um dia preguiçoso.
''Aqui é bem mais barato que nas lojas'', avisa a estudante Laís Gardenal, 11 anos. Ela e a irmã Aline passaram cerca de duas horas atrás de material para a volta às aulas. Como mora perto, Laís visita a feira todos os domingos e nunca volta para a casa de mãos abanando.
Aliás, é tarefa das mais difíceis: resistir à tentação das compras quando se tem tantas opções. E é nessa hora que o som toca alto a música-chiclete do momento: a tal da ''Eguinha Pocotó'', de MC Serginho. Faz tanto sucesso que é trilha sonora em duas duas barracas de CDs vizinhas e concorrentes. Dá para resisitir? Um CD a R$ 4, três por R$ 10. O repertório, pra lá de eclético, claro.
Tão eclético como o cardápio da feira. Do indispensável pastel cada pastelaria entre no clima restaurante e leva mesas e cadeiras para a rua à inusitada codorna assada. Os comestíveis estão todos lá. E dá-lhe garapa para acompanhar.
Faz cerca de três anos que Eliane Rodrigues e os sócios Celso Henrique e Edna de Souza Rafaeli participam da feira da Saul Elkind com um produto que ainda hoje causa certo espanto nos frequentadores. Tem gente que acha que é pombinha. ''São duas pessoas em mil que fazem essa brincadeira'', garante. Mas a codorna assada do trio também atrai compradores de outras cidades. O preço (R$ 2,50 por cerca de 250 gramas de codorna recheada) é camarada e o tempero, dizem, é também um dos segredos do sucesso.
''O comércio aqui dos Cinco Conjuntos depende muito do salário dos moradores, por isso as vendas dependem muito disso. Mas em geral trazemos 120 codornas a cada domingo'', explica. ''São codornas do tipo italiana próprias para o abate e por isso têm mais carne'', avisa Eliane, que também é responsável pela cria e abate.
Outra ave que também faz sucesso na Saul Elkind é a águia de duas cabeças, símbolo da grife paulistana Cavalera, uma das campeãs da pirataria fashion hoje em dia. E para ficar em dia com a tendência para o outono-inverno, a calça camuflada custa R$ 15 e já está à disposição antes das grandes marcas.
Só no ano passado, Washington dos Santos diz ter vendido cerca de três mil bonés. Nos primeiros dias de 2003 já foram outros 300. O diferencial é que são todos grafitados e fazem a cabeça literalmente dos rappers e skatistas da região. ''Cada dia tem uma idéia nova de estampa, mas os nomes de bandas também saem bastante'', explica Santos que há um ano transportou o grafite dos muros e paredes para camisetas e bonés. ''Também faço isso em capacetes e carros'', diz aproveitando para fazer o seu comercial.


