Fed deverá manter juros na última reunião do ano Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 20 (AE) - O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, não estragará o Natal dos americanos em sua última reunião do ano sobre o rumo da política monetária, amanhã (21). Movido talvez menos pelo espírito natalino do que pela preocupação com possíveis surpresas do bug do fim do milênio, o Fed deverá deixar os juros como estão, apesar do risco de superaquecimento da economia norte-americana, que cresceu 5,5% no terceiro trimestre e a uma média de mais de 4% nos últimos três anos. No período, a expansão acrescentou US$ 1,3 trilhão, ou dois Brasis, ao Produto Interno Bruto (PIB) norte- americano.
Mas os analistas consideram provável um aperto da política monetária na primeira reunião do Comitê Federal do Mercado Aberto (FOMC) no ano 2000, marcada para o dia 2 de fevereiro. E alguns não se surpreenderão se o Fed indicar um aumento futuro dos juros já amanhã, anunciando um viés de alta na política monetária. Segundo uma firma de análise e previsão econômica em Washington, a única dúvida é a abrangência da nova política de anunciar publicamente a direção da política monetária. Se o banco central americano decidir que a indicação cobre apenas o período entre cada uma das oito reuniões anuais do FOMC, não se deve esperar novidades na reunião de amanhã. Mas esta virá, afirmou hoje o G7 Group, em seu boletim a clientes, se os diretores do Fed decidirem que a indicação cobre um horizonte de tempo mais prolongado.
Quando o FOMC reunir-se novamente em fevereiro, a economia norte-americana estará batendo o recorde histórico de longevidade de seus ciclos de prosperidade. Mas mesmo entre os otimistas, que acreditam que as mudanças estruturais trazidas pela integração de novas tecnologias à economia e pela renúncia dos governos aos déficits orçamentários asseguram a manutenção do crescimento sem inflação, o atual ritmo da expansão parece excessivo. Eles admitem que essa mudança de paradigma permite que a nova economia dos EUA cresça de maneira sustentada, ou seja, sem inflação, a uma taxa de 3,5%. (Pelo modelo anterior, qualquer expansão superior a 2,5% nos EUA provocaria inflação e precisava, por isso, ser contida pela política monetária.) A taxa atual de expansão, de mais de 5% ao ano, porém, está claramente fora do padrão e produz distorções visíveis.
A maior delas é a explosão do déficit externo dos EUA, que deverá fechar o ano em 3,5% do PIB, um nível historicamente elevado. Seu principal alimentador é o déficit comercial, que aumentou dramaticamente em 1999, porque a demanda adicional criada pelo espetacular crescimento da economia é atendida pela importação, que também contribuiu para manter os preços estáveis. O problema é que o gigantesco déficit externo opera em favor de uma desvalorização do dólar em relação ao iene e ao euro, o que tem implicações negativas tanto sobre os preços como sobre o mercado acionário.
A exuberância do mercado de ações é outra fonte de preocupação. O temor é que uma correção brusca, provocada por sinais de ressurgimento da inflação e/ou pela percepção de que a festa acabou, gere pânico.
Neste cenário, o endividamento das pessoas e das empresas pode ser um complicador adicional. Notórios por sua propensão a poupar menos do que os demais habitantes do mundo industrializado, os americanos ajudaram a manter a atual expansão comprando ou fazendo investimentos com dinheiro emprestado. O resultado é que a dívida privada dos EUA está hoje em 5% do PIB, seu nível mais alto em mais de meio século. Há, por fim, a situação de pleno emprego criada pela expansão, que tende a gerar inflação via salários. Nenhuma dessas distorções deve levar o Fed a estragar a festa em sua última reunião do ano. Mas o consenso entre economistas e analistas é que o Fed puxará os juros para cima no 2000 para desaquecer a economia, engendrar um pouco suave numa taxa de crescimento sustentável e, acima de tudo, evitar que a festa acabe como quase todas as anteriores terminaram, ou seja, numa recessão.





