Fazer xixi na cama aos quatro ou cinco anos de idade não é sinônimo de manha, nem de preguiça. É uma doença, chamada enurese, que tem muitas causas, inclusive emocionais. O mal atinge cerca de 15% das crianças com até cinco anos.
A enurese pode ser primária, quando a criança ainda não conseguiu ter o controle do xixi durante a noite, ou secundária, quando ela conseguiu o controle por um tempo, mas voltou a molhar a cama.
A maioria dos casos, segundo o pediatra Marcelo Tavares, de Londrina, não ocorre por um só fator, mas por uma combinação deles. O primeiro componente, segundo o médico, é o genético, já que há genes específicos para o controle miccional. Se um dos pais teve enurese quando criança, a chance do filho também ter é de 15% a 20%. E se os dois pais tiveram a doença, as chances aumentam para 40% a 50%.
O pediatra alerta que esse é um fator importante para atrasar o início do tratamento. ''Pais que tiveram enurese têm tendência a achar normal que o filho ainda faça xixi na cama, já que eles também fizeram, mas se esquecem das consequências sociais e psicológicas'', afirma.
Outro componente da doença é o neurológico - crianças que tem um sono muito profundo e são difíceis de acordar para fazer xixi. ''O sono da criança é tão profundo que a sensação de bexiga cheia não é suficiente para acordá-la'', explica o urologista Sílvio Maia de Almeida, de Londrina.
Uma bexiga mais sensível, apesar de presente na minoria dos pacientes, é outro fator que pode levar à doença. ''Como é mais sensível, com pouco líquido a bexiga já se contrai, fazendo com que não dê tempo de acordar para ir ao banheiro'', explica Tavares.
O último componente da doença é hormonal, presente em 30% a 40% dos casos. Nas crianças com enurese, o nível do hormônio ADH (antidiurético) no cérebro é menor que nas outras. E a substância é responsável por diminuir em até 80% a produção de urina durante a noite. É só assim que as pessoas passam oito horas dormindo sem precisar ir ao banheiro. ''A tendência é a taxa de hormônio se normalizar com o passar dos anos, por isso é difícil ver um adulto que faça xixi na cama'', observa o pediatra.
O tratamento com remédios, indicado em 40% dos casos, pode ser feito de duas formas: com um substituto do hormônio antidiurético, a desmopressina, ou com a utilização de antidepressivos cíclicos, que deixam o sono mais leve e aumentam o tônus do esfíncter. ''Todos os pais querem um remédio 'milagroso', mas isso não existe'', alerta Tavares.
O inconveniente da primeira opção é que ela é cara e não está disponível na rede pública de saúde, e com a segunda, há efeitos colaterais. ''Também não gosto de indicar o alarme, método muito utilizado em outros países, que soa ao primeiro sinal de umidade. O melhor é limitar a quantidade de líquidos à noite, e acordar a criança uma ou duas vezes para fazer xixi'', recomenda Almeida. O pediatra lembra ainda de controlar o tempo de sono: ''uma criança que dorme 12 horas certamente vai fazer xixi na cama''.
Já as perdas diurnas de xixi, segundo o urologista, podem estar relacionadas a algum problema congênito na formação da bexiga. Por isso é importante investigar suas causas para descartar problemas como infecções urinárias e obstipação intestinal. (Com Folhapress)

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