Fazer arte para manter-se jovem
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quinta-feira, 08 de dezembro de 2011
Silvana Leão <br> <br> Reportagem Local 
São Paulo - Um grupo de 20 idosos de várias regiões do País, que apostou na arte como forma de viver com mais prazer e mais saúde esta fase da vida, foi o centro das atenções esta semana, durante a premiação, em São Paulo, da 13 edição do concurso Talentos da Maturidade, promovido pelo Banco Santander. Entre os premiados estava a curitibana Geraldina Galléas, de 81 anos, que inscreveu a fotografia de um homem sozinho, próximo a um penhasco.
A exemplo dos participantes, Geraldina é adepta da filosofia de que é melhor não ter tempo para pensar em doenças e outros problemas. Além de fotografar, ela pinta, toca violão e teclado, escreve poesias e contos, cuida das plantas. Para Geraldina, a arte é fonte de vida. ''Ela nos faz acreditar no nosso potencial.'' E foi assim, com a autoestima nas alturas, que esta mãe de cinco filhos, avó de 11 netos e bisavó de três bisnetos subiu ao palco de uma das mais concorridas casas de eventos da capital paulista para receber troféu, buquê de flores e um cheque de R$ 7 mil.
Ela concorreu com outros 9,5 mil idosos, que participaram nas categorias literatura, fotografia, artes plásticas e música. ''A gente não pode vegetar. Tem que agir para viver mais. Tem muita gente nova que é velho de espírito. Eu, neste idade, me sinto jovem'', ensina. Geraldina confessa que a solidão - sentimento que dá nome ao trabalho que lhe rendeu o prêmio - às vezes é inevitável. Mas que pode ser transformada em momentos de paz interior.
Na hora de captar a imagem de sua foto, a curitibana desfigurou-a, para fugir do comum. ''Meus trabalhos são assim, contemporâneos, como meu espírito'', define a artista, que adora pesquisar sobre arte na internet e está preparando um blog, com a ajuda de uma amiga. ''Neste blog vou poder mostrar toda minha produção. Tenho mais de 100 telas prontas'', anima-se.
Apesar da discrição típica dos mineiros, o empresário Marcelo de Aquino, 65, de Juiz de Fora, outro premiado no Talentos da Maturidade, se transforma ao falar de suas esculturas, feitas a partir de peças usadas de automóveis. Há duas décadas, quando reciclagem ainda era um termo desconhecido pela maioria e não chegava a ser uma preocupação, Aquino começou a incomodar-se com o grande número de peças descartadas. ''Não me conformava com todo aquele desperdício.''
O proprietário da indústria mecânica passou, então, a transformar parafusos, pesos de balança, molas, suspensões, rodas e várias outras peças em obras de arte, utilizando solda e massa de poliester. ''É a isso que eu me dedico nas horas vagas. Trabalho uns 20 dias para produzir uma nova escultura'', conta o mineiro, que inscreveu no concurso uma peça que reproduz a imagem de um homem ajudando outro a se levantar do chão, batizada de Solidariedade. ''Esta peça representa meu desejo de ver materializado o que mais me emociona na vida, que é poder ajudar o outro, ser solidário, ser gentil.''
Para Aquino, desenvolver uma atividade que dê prazer e ser reconhecido por isso é uma grande emoção. ''Depois que deixamos de ser produtivos no mercado de trabalho, passamos a ser vistos de outra forma. Vamos sendo deixados para trás, quase ninguém tem paciência de nos ouvir. Por isso é tão bom sabermos que o que fazemos agrada às pessoas.'' Aquino já fez várias exposições em sua terra natal e, embora não tenha a preocupação de comercializar suas criações, elas já foram parar em Portugal e na Áustria.
A gerontóloga Laura Machado, consultora para a categoria Programas Exemplares do concurso e representante no Brasil da Associação Internacional de Gerontologia e Geriatria da Organização das Nações Unidas (ONU), lembra que o País vive um momento especial, de valorização do idoso. Trata-se, segundo ela, do resultado de um movimento que começou no final da década de 1990, com a criação das universidades abertas e da Política Nacional do Idoso. ''A partir daí, este segmento tão importante da sociedade passou a aparecer e a ser valorizado. Para exemplificar, ela conta que o prêmio foi criado pelo Banco Real em 1999 para acontecer apenas naquele ano, que foi o Ano Internacional das Pessoas Idosas. Mas o sucesso do projeto foi tanto que ele continuou a ser realizado.''
* A jornalista viajou a São Paulo a convite do Banco Santander


