Fazendeiros brancos iniciam fuga do Zimbábue
Harare, 09 (AE-AP) - O êxodo de fazendeiros brancos do Zimbábue intensificou-se neste fim de semana, diante do aumento das invasões de terras por cerca de 3.000 veteranos da guerra da independência e outros partidários do presidente Robert Mugabe, que vem estimulando a ocupação das propriedades.
Em Karoi, a cerca de 220 quilômetros da capital, Harare, Alex van Leenhoff entregou metade de sua fazenda de 364 hectares a membros da Associação Zimbabuana de Ex-Combatentes da Guerra de Libertação Nacional.
O país tornou-se independente da Grã-Bretanha em 1980.
Van Leenhoff disse ter sido espancado e chicoteado diante da mulher e dos filhos. Em algumas propriedades ocupadas, os veteranos - alguns deles armados de machetes - ordenaram a saída dos jornalistas brancos do local e disseram que só receberão os negros. Desde fevereiro foram tomadas cerca de 900 propriedades.
Mugabe tem declarado que é imoral o fato de os brancos - 2% da população - possuírem 4.500 fazendas, o que corresponde a 70% do solo fértil.
Na quinta-feira, ele conseguiu a aprovação no Parlamento de uma lei que dá ao governo o poder de apropriar-se das terras sem ter de pagar indenização. No dia seguinte, incitou seus partidários a tomar posse delas antes das eleições parlamentares de maio, mesmo que para isso precisem agir com violência.
A tensão é grande no país porque muitos fazendeiros se declaram dispostos a resistir ao governo. O principal dirigente da oposição, Morgan Tsvangirai, do Movimento para a Mudança Democrática (MDC), reconheceu hoje a existência de uma aliança de seu grupo com líderes brancos para enfrentar em maio o partido de Mugabe, Zanu-PF, no poder há 20 anos.
Tsvangirai enfatizou que os brancos são importantes para o país porque "criam empregos" e qualificou Mugabe de "déspota desequilibrado", por incitar a população à violência. "Hoje, enfrentamos um governo que ameaça fazer a guerra aos próprios cidadãos, se eles não o apóiam."
Várias organizações, entre as quais o Zanu-PF, criticaram duramente o MDC por ter dado apoio aos fazendeiros e, na sexta-feira, Mugabe acusou Tsvangirai de ser uma marionete dos brancos que colonizaram o país.
O presidente zimbabuano tem insistido que a Grã-Bretanha deve indenizar os fazendeiros e a lei aprovada quinta-feira estipula isso. O governo britânico nega-se a pagar compensações, mas hoje anunciou que poderá entregar milhões de libras em ajuda para uma "reforma agrária genuína" e convidou o país a enviar uma delegação a Londres para discutir "um programa construtivo".
A crise política no Zimbábue ganhou contornos de guerra civil depois que o MDC derrotou o governo num referendo em fevereiro. Os eleitores votaram contra a proposta de Mugabe de modificar a Constituição para ampliar seus poderes e permitir a redistribuição das fazendas de brancos para os negros. Os governistas temem perder a maioria no Parlamento em maio e a presidência na eleição de 2002.
Hoje, Mugabe viajou para a República Democrática do Congeo (RDC, ex-Zaire) para uma visita ao presidente Laurent Kabila. O envio de 11 mil soldados zimbabuanos à RDC, para ajudar Kabila a conter uma rebelião, aprofundou a crise econômica no Zimbábue e reduziu o apoio popular a Mugabe.
Manifestações contra a alta do custo de vida, desemprego elevado e a participação do país na guerra são frequentes. Além disso, há grande insatisfação com Mugabe por não ter cumprido a promessa de redistribuir as terras aos camponeses negros.
Analistas políticos avaliam que as invasões porão em perigo o plantio da safra de trigo, levarão os fazendeiros à falência e poderão causar quebradeira no sistema financeiro.





