Paulo Pegoraro
De Catanduvas
Fazendeiros do município de Catanduvas (50 quilômetros ao sul de Cascavel) decidiram ontem criar uma milícia, em conjunto com a prefeitura que, segundo eles, deve cumprir a tarefa de prevenir invasões de terra e até mesmo promover reintegrações de posse. Eles atenderam conclamação do prefeito Olímpio de Moura (PMDB), que vinha defendendo a formação de milícia. Durante o encontro, realizado na Câmara de Vereadores, eles decidiram que a força deve ser denominada ‘‘guarda municipal’’ – permitida pela Constituição Brasileira apenas para cuidar do patrimônio público.
A motivação do prefeito e dos ruralistas foi a invasão, no início da semana passada, de uma área de mata – comum a três fazendas (a 25 quilômetros da cidade) – que soma 510 alqueires, por 150 famílias. Os proprietários são José Manoel Mendonça, Maria Alice Paciornik e Carlos Zuquetto. Eles garantem que a terra é produtiva e que os sem-terra invadiram área de preservação obrigatória.
Antonio Fontanella, um dos líderes dos sem-terra, porém, alega que ‘‘metade é de mato e capoeiral’’ e há apenas 200 alqueires mecanizados, ‘‘parte deles entregue a arrendatários’’. Os sem-terra afirmam que se instalaram no meio da mata por causa das fontes de água para manutenção do acampamento, mas que logo iniciarão o plantio em áreas descampadas.
Segundo Antonio Fontanella, a criação da milícia não preocupa, ‘‘pois é só uma forma de eles tentarem demonstrar força, mas não vai adiantar’’. O prefeito Olímpio de Moura – que é irmão do deputado estadual Nereu Moura, que preside a Comissão de Terras da Assembléia –, afirma que sua assessoria jurídica deu parecer indicando que a ‘‘guarda’’ pode atuar na questão fundiária, ‘‘como prevenção a invasões, ou requisitada pela Justiça para desocupações’’.
Maria Alice Paciornik, cujo marido Neri é primo da secretária estadual de Administração, Maria Elisa Paciornik, afirma que a criação da força ‘‘é o que nos resta, pois o governo do Estado não executa as ordens de reintegração’’. José Manoel Mendonça fez alerta aos demais fazendeiros, dizendo que a invasão de sua propriedade ‘‘foi uma surpresa, por ser produtiva’’, o que significa que ‘‘nenhuma terra da região está livre de invasão’’. Carlos Zuquetto havia entregue ao governador Lerner, sábado, em Cascavel, cópias de ordem de reintegração de posse, pedindo seu cumprimento, ‘‘mas ele disse que não pode resolver a questão’’, relatou.
Um dos participantes da reunião, Miguel Bertolini, dono de 45 alqueires, colocou em dúvida a eficácia da ‘‘guarda municipal’’ e disse que uma alternativa ‘‘eficiente’’ para evitar novas invasões seria ‘‘reunir lideranças políticas e proprietários, em cada município, além de oferecer área para assentar os sem-terra do próprio município’’. Com isso, segundo Bertolini, ‘‘poderíamos fazer a grande reforma agrária e acabar com os conflitos’’. Sua proposta não chegou a ser discutida. Os cerca de cem participantes do encontro decidiram formar uma comissão, com dez membros, que tentará viabilizar a ‘‘guarda municipal’’.
Os fazendeiros devem se cotizar para bancar a força e comprar armamento, mas querem que a prefeitura estude a utilização de recursos de impostos rurais. Um ruralista, Geni Lago, disse que não será difícil arregimentar pessoal, ‘‘com tanto desempregado que há por a풒. Para Olímpio de Moura, a ‘‘milícia’’ poderia ser treinada ‘‘pela PM e pelo Exército’’.
Alguns dos presentes disseram que só a discussão sobre a criação da guarda já estava servindo para deixar o Estado ‘sob pressão’. Os ruralistas também definirão data para ocupar a praça de pedágio da BR-277, no município, e para formar caravana para ir ao Palácio Iguaçu.A função seria combater as invasões e, se necessário, promover a reintegração de posse; proposta foi defendida pelo prefeito de Catanduvas
Edson MazzettoJosé Manoel diz que invasão de sua fazenda foi uma surpresaEdson MazzettoAssembléiaFazendeiros aprovaram a criação de milícia que, pela proposta, teria o mesmo poder que a polícia

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