Fazendeiro teria pago R$ 50 mil pela morte de freira
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terça-feira, 22 de fevereiro de 2005
Claire de Oliveira<br> France Presse 
Anapu (PA) - O frade dominicano francês Henri Burin des Roziers, que tem o nome incluído numa lista de pessoas marcadas para morrer, no Estado amazônico do Pará, declarou que a morte da missionária americana Dorothy Stang foi consequência da ''impunidade'' com a qual contam os pistoleiros e os mandantes de assassinatos na região.
''Quando é condenado, o acusado foge com a cumplicidade da polícia, ou fica em liberdade com a cumplicidade da Justiça'', resumiu o religioso, advogado da Comissão Pastoral de Xinguara (sul do Pará), ameaçado de morte várias vezes. A cabeça do padre vale atualmente R$ 100 mil.
O assassinato da missionária Stang, amiga de Roziers, teria sido pago com a importância de R$ 50 mil, segundo depoimentos obtidos pela polícia. ''Não sei o que significa esta nova lista. Não estou preocupado comigo, mas com os que trabalham comigo'', afirmou Roziers.
O religioso acusa os fazendeiros pelos assassinatos no Pará (1,24 milhão de km2, um pouco maior que a Colômbia), o segundo maior Estado do Brasil depois do Amazonas (1,57 milhão de km2) e o onde o conflito agrário é mais violento. ''Os fazendeiros sabem que se beneficiam com a impunidade, e se sentem fortes politicamente e economicamente'' devido ao sucesso nas exportações agrícolas o total das exportações agropecuárias do Brasil, para as quais eles contribuem, alcançou 39 bilhões de dólares em 2004, ou seja, um aumento de 27,03% em relação a 2003 , explicou Roziers.
''Eles estão decididos a enfrentar tudo que vai contra a concentração de terras. Há uma oposição muito forte a qualquer modificação da divisão atual das terras'', denunciou o religioso francês.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou ontem que ''o Brasil não é terra de ninguém'' e que o governo estava decidido a acabar com a apropriação ilegal e com a exploração irracional de terras na Amazônia. Na semana passada, o governo brasileiro aprovou medidas para a proteção ambiental de 130 mil hectares o tamanho da Nicarágua na Amazônia.
Roziers comentou que sofreu ''ataques muito violentos'' sob a pressão de organizações de fazendeiros na cidade de Redenção, no sul do Pará, onde ele foi acusado de ''incitação à ocupação de terras''. Para ilustrar a impunidade que reina no Pará, o religioso lembrou que em maio de 2003, ''obtivemos a condenação a 19 anos de prisão de três pessoas, entre elas o ex-prefeito de Rio Maria (sul do Pará), que em 1985 ordenou o assassinato do sindicalista João Canuto''.
''Mas até agora, todos eles estão em liberdade, esperando uma decisão do Supremo Tribunal'', lamentou. De acordo com recentes registros da imprensa, 92% dos crimes cometidos no Pará permanecem impunes.
O governo anunciou na segunda-feira a criação de um Grupo de Proteção dos Direitos Humanos no Pará para proteger 65 pessoas ameaçadas de morte por sua atividade em defesa dos direitos humanos.
A missionária Dorothy Stang foi assassinada no dia 12 de fevereiro por ter promovido um ''Projeto de Desenvolvimento Sustentável'' numa área de 120 mil hectares que recebeu do Instituto de Reforma Agrária (INCRA) no município de Anapu, mas que era reivindicada por um proprietário de terras vizinho, acusado pela polícia de ser o mandante do crime e atualmente foragido.


