Fazendeiro é acusado de maus-tratos
Edinelson Alves
Especial para a Folha
Um grupo de trabalhadores rurais de Bela Vista do Paraíso e de São Sebastião da Amoreira, formado por 32 adultos e 30 crianças, que há dois meses colhe café no Sul de Minas Gerais, denunciou no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alfenas (MG), que enfrenta um regime de semi-escravidão. Os bóias-frias norte-paranaenses trabalham na Fazenda Paciência, no município de Machado, propriedade de Hamilton Guerra. A Folha ouviu ontem à tarde Luiz Antônio da Silva, coordenador do Centro de Direitos Humanos de Alfenas, que confirmou que os trabalhadores estão sofrendo todo tipo de exploração.
Ele disse que ofereceu denúncia à Polícia Militar e também ao Ministério Público para que os abusos contra os bóias-frias sejam tipificados como escravidão. O que esses trabalhadores estão passando ali é horrível. Eles moram num local que mais parece um chiqueiro. Trabalham praticamente pelo custo da comida já que os preços combinados não estão sendo respeitados pelo fazendeiro. Quando o grupo veio ao sindicato para denunciar os abusos, o proprietário simplesmente quis despejá-los na cidade de Machado sem direito a nada, denunciou.
Segundo Silva, os trabalhadores foram impedidos de trabalhar em outro local. Há também informações de que pessoas andam armadas no local. Tudo isso são evidências claras do abuso contra os trabalhadores, o que caracteriza regime de escravidão, disse o coordenador do Centro de Direitos Humanos.
Luiz da Silva disse que a primeira medida foi comunicar a Polícia Militar para impedir o despejo das famílias. Em outros tempos a PM seria utilizada pelo fazendeiro para expulsar os trabalhadores, mas as coisas estão mudando devido ao trabalho de conscientização da sociedade.
Ontem à tarde ele confirmou que entraria com denuncia junto ao Ministério Público. Queremos que esses abusos sejam tratados como crime de escravidão conforme prevê os artigos 149 e 207 do Código Penal. Se formos tratar apenas na área trabalhista o responsável paga uma miséria e fica impune.
Nilson Pereira Braga, de Bela Vista do Paraíso, é um dos bóias-frias que há dois meses trabalha na Fazenda Paciência. Falando à Folha em nome do grupo, ele confirmou que a situação é insustentável.Nada do que foi combinado vem sendo cumprido. O normal era ganhar em torno de R$ 400,00por mês, mas ele só paga em torno de R$ 30,00 por semana, o que não dá nem para pagar a comida. Quando falamos em sair ele disse que nós estávamos devendo para ele. A situação piorou desde quinta-feira quando o fazendeiro cortou nosso crédito no mercado e também o leite das crianças. Se a situação não for resolvida com urgência todos passarão fome.
Nilson disse que antes de denunciar a situação no Sindicato de Alfenas os trabalhadores tentaram fazer uma negociação. A proposta era seguinte: cada um receberia R$ 300,00 e o transporte de volta.Mas ele não quis saber de conversa e disse que nós estávamos devendo para ele, disse Nilson. Ontem o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bela Vista, Arnaldo Nascimento de Jesus, denunciou o caso a Federação dos Trabalhadores Rurais do Paraná em busca de apoio para socorrer os trabalhadores. A Folha tentou ontem por diversas vezes ouvir a versão do proprietário da fazenda, mas ele não foi localizado.





