Fazendeiro diz que perdeu a fé na Justiça
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terça-feira, 17 de novembro de 1998
José Maria Tomazela 
O fazendeiro Roberto Maschietto, de 68 anos, dono da Fazenda Rio Verde, em Itararé (SP), ocupada durante 23 dias por cerca de 600 sem-terra, disse que perdeu a fé na eficácia da Justiça, depois da destruição do seu patrimônio.
Ele disse ontem que a fazenda era um projeto de vida pessoal e do seu filho, Cyro Maschietto, rendido pelos sem-terra no momento da invasão. Os sem-terra conseguiram que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) apressasse a vistoria da fazenda visando sua desapropriação para a reforma agrária. Técnicos do Incra devem terminar entre hoje e amanhã o trabalho de campo, apesar da permanência dos sem-terra nos limites da propriedade. Caso seja considerada improdutiva, a fazenda pode ser desapropriada.
Agência Estado - Que conclusões o sr. tira do episódio ocorrido na Fazenda Rio Verde?
Roberto Maschietto - A primeira é que perdi a fé na eficácia da Justiça. Sou advogado e sempre respeitei a lei, mas acho que naquele episódio houve uma sucessão de atos de condescendência com quem não tinha direito, sempre em prejuízo de quem a lei deveria amparar. Quando a juíza de Itararé deu a liminar mandando que os invasores fossem despejados, meu direito foi reconhecido, mas ficou apenas no papel. Durante 23 dias não se conseguiu fazer com que a decisão fosse cumprida. Ainda agora, embora os sem-terra tenham saído por livre e espontânea vontade, eles continuam praticamente dentro da minha propriedade. Estão matando meus bois, impedindo o trabalho dos meus empregados. A quem posso apelar?
Não caberia à polícia fazer cumprir a ordem judicial?
Maschietto - Entendo que sim, mas a polícia de lá não é preparada para isso. Eles foram até minha fazenda, mas na verdade, fizeram somente um piquenique na beira do Rio Verde, com a alimentação que eu forneci. Gastei R$ 3 mil para dar comida aos policiais, mas eles tiveram medo de enfrentar os sem-terra. A tropa de choque foi convocada, mas os dias se passaram e eles não foram até o local. Alguma ordem superior, não sei o que, algo fez com que a PM deixasse o tempo correr. Em todo o episódio, a polícia teve medo e isso talvez tenha encorajado os sem-terra. Eles xingavam os policiais.
O sr. tem 3.800 alqueires, não acha que é muita terra?
Maschietto - Aquela fazenda faz parte de um projeto de vida meu e do meu filho. Nunca fui rico. Fiz Engenharia no Mackenzie, montei um escritório de projetos, depois fiz Direito. Tudo o que consegui, apliquei lá. Aquelas terras são o futuro do meu filho, Cyro, que até a invasão, morava lá. Ele agora está hospedado em um hotel, em Itararé, pagando diárias, porque não tem segurança para voltar para a fazenda. Eu mesmo tive que pagar hotel quando fui para lá, porque a casa ficou destruída. As famílias de meus dez empregados que foram expulsos de suas casas ficaram desabrigadas, passaram fome, perderam o que tinham. Disso ninguém fala.
O sr. pensa obter indenização pelos prejuízos que teve?
Maschietto - Essa já é uma decisão tomada. Vou fazer isso para não ficar com vergonha de ser brasileiro. Eles fizeram tudo aquilo e estão impunes. Já haviam feito o mesmo, no começo do ano, em escala menor, com outro proprietário da região, o Gumercindo Ferreira dos Santos, mas ele deixou por isso mesmo. Ninguém foi punido. Eu vou até o fim. Estou reunindo provas, documentos, laudos para processar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), o governo do Estado e a União, porque entendo que alguém tem que responder pelo que aconteceu na fazenda. O País tem leis.


