Presidente Prudente, SP - Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebia ontem a cúpula do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Brasília, um grupo de 15 homens fazia exercícios de tiro no interior de uma fazenda, no Pontal do Paranapanema. Não eram homens nem armas quaisquer. São profissionais treinados para manusear com precisão de simples revólveres calibre 38 até armas de uso restrito das Forças Armadas, como o fuzil AR-15, escopetas calibre 12 de cano curto e carabinas 44 .
A missão desse exército particular é uma só: eles são pagos para reprimir uma possível invasão dos sem-terra. ''Damos um tiro de alerta para o alto para não entrar, mas se entrar, a ordem é baixar o cano'', explica o líder. A reportagem presenciou o exercício a convite do próprio fazendeiro. As cenas foram registradas também por uma emissora de TV.
O dono da fazenda exigiu apenas que não fosse identificado, nem os integrantes da sua ''força-tarefa'', como denominou o grupo. Seu objetivo era alertar as autoridades para o risco de um conflito decorrente dos novos acampamentos na região. E também mostrar que os fazendeiros do Pontal não estão blefando quando dizem estar preparados para repelir as investidas dos sem-terra.
Ele conta que sofreu cinco invasões por sem-terra ligados ao MST, teve prejuízos e nunca foi indenizado. ''É melhor para todos que eles não tentem de novo.'' O fazendeiro indicou o local do encontro com um de seus homens, na margem de uma rodovia que corta a região.
Quando o veículo da reportagem parou na porteira um encapuzado apareceu. Estava de óculos escuros e trazia um revólver sob o blusão. Ele indicou o caminho, três quilômetros porteira adentro. Outros 14 homens esperavam à sombra de uma árvore. Todos com a cabeça coberta por capuzes, bonés e chapéus, blusas de manga longa mesmo sob o sol, botas ou botinas e as armas, uma na cintura outra na mão. O líder se apresentou como ''Zé''.
Disse que parte do grupo é da região outros vieram de fora. Foram contratados como seguranças, mas fazem também serviços de peão, lidando com o gado. Ganham em média dois salários mínimos por mês. Fazem patrulhas à noite, mas estão em alerta 24 horas por dia. Alguns vieram de fazendas vizinhas para ''engrossar'' o grupo. E começam a mostrar as armas.
São sete escopetas de calibre 12, sendo três de cano curto de uso civil proibido, uma espingarda calibre 22 ''a bala caminha no corpo'', explica o líder , duas carabinas 38, duas carabinas 44, um fuzil ponto 30, ''que derruba um caminhão'', um fuzil 762 com arma telescópica ''alcança 3.800 metros de distância'' e o AR 15, capaz de perfurar o motor de um trator. Além dos revólveres, cada um com o seu.
De onde vieram as armas? ''De onde, eu não me lembro, eu não estou autorizado a falar disso. Não sei se são proibidas, a gente usa as armas que tem.'' E já precisaram usar contra alguém? ''Aqui, ainda não.'' E em outro lugar? ''A gente trabalha aqui há mais de ano, a maioria de nós tem mulher e filhos que moram na fazenda. Se vierem para cima de nós, vão tomar bala mesmo.''

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