A fazenda de um repórter da história da imprensa brasileira e compositor de ‘‘Nega do Cabelo Duro’’, David Nasser, está invadida por 260 a 300 famílias de sem-terra há 30 dias, mas não consta da última relação de invasões da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), e passou despercebida dos jornais nacionais.
Os sem-terra acampados na Fazenda Água Amarela, em Jardim Olinda, do lado paranaense do Pontal do Paranapanema, a 90 quilômetros de Paranavaí, não têm idéia de quem foi o proprietário que acusam de ‘‘improdutivo’’ - uma improdutividade que inclui 15 livros, mais canções de sucesso como ‘‘Confete’’, ‘‘Normalista’’, ‘‘Carlos Gardel’’ e ‘‘Hoje Quem Paga Sou Eu’’, reportagens que mudaram o Brasil e triplicaram as tiragens do jornal ‘‘Diário da Noite’’ e da revista ‘‘O Cruzeiro’’, e ainda 1.275 cabeças de gado, 150 litros de leite por dia e dois certificados de produtividade do Incra.
‘‘Aqui nada é produzido’’, contesta um dos líderes locais dos sem-terra, recusando-se a se identificar, uma exigência feita agora a quem chega à porteira da Água Amarela. Explica-se: primeiro, a liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ‘‘está sendo alvo de mandados de prisão’’; e, depois, com a invasão de encapuzados à Fazenda Saudade, em Santa Isabel do Ivaí, ‘‘todo cuidado é pouco’’.
A entrada de repórteres é decidida em uma miniassembléia diante da porteira. Repórter e fotógrafo são escoltados durante a visita. Os sem-terra de Água Amarela tomam chimarrão. ‘‘São do Rio Grande do Sul’’, denuncia um fazendeiro vizinho que os vigia como se fosse a próxima vítima. ‘‘Tem até brasiguaios entre eles’’, acrescenta. ‘‘Somos todos do Paranᒒ, rebatem os dois sem-terra e sem-nome da escolta.
Algumas barracas de lona preta abrigam até cinco famílias. Nos fogareiros comuns, porém, há poucas e rasas panelas. Uma horta plantada não teve tempo de produzir. Os sem-terra, o caseiro de David Nasser e os policiais na Delegacia de Jardim Olinda concordam apenas em uma informação: a fome já se tornou um problema, e tende a se agravar. As crianças estão sem leite numa fazenda produtora de leite.
Os sem-terra alegam que esperam um novo laudo do Incra que decidirá ‘‘se é aqui que vão ficar, ou se procurarão outro lugar’’. Se não sabiam que a Água Amarela era ‘‘improdutiva’’, por que a invadiram? ‘‘Escolhemos a fazenda de menor área na região’’ (300 alqueires), um deles respondeu. Içada numa árvore, a bandeira do MST está puída. Muitos jogam cartas, esperando já 30 dias.
Numa entrevista à ‘‘Agência Estado’’, no último domingo, o governador Jaime Lerner (PFL) falou em ‘‘vazamento do Pontal do Paranapanema’’. A Água Amarela é um exemplo. Fica em frente a Teodoro Sampaio, em São Paulo, separada pelo rio Paraná. Como explicou o caseiro Roque Leoni da Silva, sem temer a presença de vários sem-terra, ‘‘a invasão, aqui, foi má idéia’’. E acrescentou: ‘‘Se procurassem, veriam plantação de milho, feijão, algodão e mandioca, gado pastando, cavalos...’. Depois, explicou: ‘‘Eu também sou um sem-terra, mas a essa invasão não apoio de jeito nenhum’’.
Os sem-terra derrubaram eucaliptos do Ibama, segundo Roque, para armar as barracas. ‘‘Não é verdade’’, eles desmentem. A invasão foi pacífica: abriram a porteira e acamparam. Vieram de Almeria, outro assentamento do MST no Jardim Olinda. Numa reunião de ruralistas com a viúva Isabel Nasser, que mora no Rio, um fazendeiro lamentou a falta de resistência aos invasores e criticou a ausência do administrador da Água Amarela. Ele até propôs o armamento geral, prevendo que ‘‘a situação tende a piorar durante um ano eleitoral’’.
‘‘Estávamos todos com a Síndrome da Zebra’’, declarou à ‘‘Agência Estado’’ um dos fazendeiros agora sob proteção de uma milícia particular. ‘‘O leão na moita, pronto a atacar, e as zebras não pressentem o perigo, ou cada uma da manada acredita que é a outra que será a vítima’’. Ele teme retaliação do MST se publicado o seu nome, ou o de sua fazenda. E também problemas com a polícia, pois se armou com um arsenal proibido contrabandeado do Paraguai. ‘‘Nós estávamos todos ‘de’ a p钒, justifica.
David Nasser morreu aos 63 anos, após ser operado por causa de uma infecção biliar. Era paulista de Jaú, filho de libaneses. Prevendo a morte, escreveu: ‘‘De minha parte, sinto a aproximação da hora em que necessito dedicar-me inteiramente às páginas de lembranças e aos bois que sustento’’. Antes de entrar em coma, disse a seu cunhado, o cantor João Dias: ‘‘A vida é uma festa em que a gente entra nela começada e sai sem ela ter terminado’’.

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