Fazenda de repórter é invadida no PR
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de setembro de 1997
Moisés Rabinovici Agência Estado, Jardim Olinda 
A fazenda de um repórter da história da imprensa brasileira e compositor de Nega do Cabelo Duro, David Nasser, está invadida por 260 a 300 famílias de sem-terra há 30 dias, mas não consta da última relação de invasões da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), e passou despercebida dos jornais nacionais.
Os sem-terra acampados na Fazenda Água Amarela, em Jardim Olinda, do lado paranaense do Pontal do Paranapanema, a 90 quilômetros de Paranavaí, não têm idéia de quem foi o proprietário que acusam de improdutivo - uma improdutividade que inclui 15 livros, mais canções de sucesso como Confete, Normalista, Carlos Gardel e Hoje Quem Paga Sou Eu, reportagens que mudaram o Brasil e triplicaram as tiragens do jornal Diário da Noite e da revista O Cruzeiro, e ainda 1.275 cabeças de gado, 150 litros de leite por dia e dois certificados de produtividade do Incra.
Aqui nada é produzido, contesta um dos líderes locais dos sem-terra, recusando-se a se identificar, uma exigência feita agora a quem chega à porteira da Água Amarela. Explica-se: primeiro, a liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) está sendo alvo de mandados de prisão; e, depois, com a invasão de encapuzados à Fazenda Saudade, em Santa Isabel do Ivaí, todo cuidado é pouco.
A entrada de repórteres é decidida em uma miniassembléia diante da porteira. Repórter e fotógrafo são escoltados durante a visita. Os sem-terra de Água Amarela tomam chimarrão. São do Rio Grande do Sul, denuncia um fazendeiro vizinho que os vigia como se fosse a próxima vítima. Tem até brasiguaios entre eles, acrescenta. Somos todos do Paraná, rebatem os dois sem-terra e sem-nome da escolta.
Algumas barracas de lona preta abrigam até cinco famílias. Nos fogareiros comuns, porém, há poucas e rasas panelas. Uma horta plantada não teve tempo de produzir. Os sem-terra, o caseiro de David Nasser e os policiais na Delegacia de Jardim Olinda concordam apenas em uma informação: a fome já se tornou um problema, e tende a se agravar. As crianças estão sem leite numa fazenda produtora de leite.
Os sem-terra alegam que esperam um novo laudo do Incra que decidirá se é aqui que vão ficar, ou se procurarão outro lugar. Se não sabiam que a Água Amarela era improdutiva, por que a invadiram? Escolhemos a fazenda de menor área na região (300 alqueires), um deles respondeu. Içada numa árvore, a bandeira do MST está puída. Muitos jogam cartas, esperando já 30 dias.
Numa entrevista à Agência Estado, no último domingo, o governador Jaime Lerner (PFL) falou em vazamento do Pontal do Paranapanema. A Água Amarela é um exemplo. Fica em frente a Teodoro Sampaio, em São Paulo, separada pelo rio Paraná. Como explicou o caseiro Roque Leoni da Silva, sem temer a presença de vários sem-terra, a invasão, aqui, foi má idéia. E acrescentou: Se procurassem, veriam plantação de milho, feijão, algodão e mandioca, gado pastando, cavalos.... Depois, explicou: Eu também sou um sem-terra, mas a essa invasão não apoio de jeito nenhum.
Os sem-terra derrubaram eucaliptos do Ibama, segundo Roque, para armar as barracas. Não é verdade, eles desmentem. A invasão foi pacífica: abriram a porteira e acamparam. Vieram de Almeria, outro assentamento do MST no Jardim Olinda. Numa reunião de ruralistas com a viúva Isabel Nasser, que mora no Rio, um fazendeiro lamentou a falta de resistência aos invasores e criticou a ausência do administrador da Água Amarela. Ele até propôs o armamento geral, prevendo que a situação tende a piorar durante um ano eleitoral.
Estávamos todos com a Síndrome da Zebra, declarou à Agência Estado um dos fazendeiros agora sob proteção de uma milícia particular. O leão na moita, pronto a atacar, e as zebras não pressentem o perigo, ou cada uma da manada acredita que é a outra que será a vítima. Ele teme retaliação do MST se publicado o seu nome, ou o de sua fazenda. E também problemas com a polícia, pois se armou com um arsenal proibido contrabandeado do Paraguai. Nós estávamos todos de a pé, justifica.
David Nasser morreu aos 63 anos, após ser operado por causa de uma infecção biliar. Era paulista de Jaú, filho de libaneses. Prevendo a morte, escreveu: De minha parte, sinto a aproximação da hora em que necessito dedicar-me inteiramente às páginas de lembranças e aos bois que sustento. Antes de entrar em coma, disse a seu cunhado, o cantor João Dias: A vida é uma festa em que a gente entra nela começada e sai sem ela ter terminado.


