Santo Antônio da Platina - A faxineira Jucimara Ferreira, de 33 anos, enfrenta um quadro clínico de depressão que a afastou do trabalho nas últimas semanas para lutar por uma causa que pode mudar os rumos da política oficial de tratamento aos adolescentes que cumprem medida socioeducativa com privação de liberdade no Paraná.
Ela quer que o Estado seja responsabilizado pela morte do filho de 17 anos, ocorrida oficialmente no dia 9 de dezembro e cujos registros oficiais apontam como causa asfixia por enforcamento. ''Tenho o direito de saber o que aconteceu. Eu não acredito em suicídio'', declara.
Segundo Jucimara, a assistente social da Secretaria Estadual da Família e do Desenvolvimento Social (Seds), que administra as unidades para adolescentes infratores, incumbida de informar a família da morte do adolescente, teria sugerido que ele se suicidou, embora o órgão não confirme oficialmente a informação. ''Falei com ele três dias antes. Ele estava apaixonado por uma menina daqui. Trocava cartas com ela, dizia que iria comprar um buquê de flores e uma caixa de bombom pra ela quando saísse de lá'', conta. ''Ele estava cheio de planos, com vontade de mudar de vida, de trabalhar, de casar, de conhecer nossa casa nova. Ele queria viver'', afirma a mãe, descartando categoricamente a hipótese de suicídio.
A tristeza da notícia se transformou em revolta quando, conforme ela, percebeu sinais de tortura no corpo do filho, trasladado de Piraquara para Santo Antônio da Platina (Norte Pioneiro), onde vive a família. ''Ele foi torturado antes de morrer. O corpo dele estava puro hematoma, com o rosto ferido, com os dedos da mão quebrados. Ele apanhou muito. Abaixo do pescoço estava muito roxo, como se alguém houvesse esganado ele'', relata.
A assessoria de comunicação da Seds informou que ''foi aberto processo administrativo e a situação está sendo apurada''. Ainda de acordo com a nota, ''em paralelo também está acontecendo uma investigação policial. Tudo é acompanhado pelo Ministério Público. Ao final da investigação policial, a conclusão indicará a abertura ou não de um processo judicial''. A FOLHA tentou contato com a Vara de Infância e Juventude, mas não conseguiu por conta do recesso forense.
Jucimara, no entanto, diz que não está sendo informada do processo. Depois do trauma da notícia, que ainda provoca nela choro compulsivo, a faxineira tomou uma decisão. Vai procurar o Ministério Público para ajudar a esclarecer o caso. ''Não tenho como pagar um advogado. Preciso que me ajudem a fazer justiça'', avisa Jucimara, que vive com o padrasto de Erick, um servente de pedreiro, e mais duas filhas adolescentes - a renda da família é complementada pelo Bolsa Família.
Erick estava sob guarda do Estado havia 16 meses. Em agosto de 2011, ele confessou ter matado uma adolescente de 14 anos um mês antes. A mãe diz que o convenceu a se entregar a polícia após ele ficar um período escondido na casa de parentes em Bandeirantes.
Após uma temporada conturbada no Cense de Santo Antônio da Platina, onde também teria recebido ameaças de morte de outros internos, o rapaz foi transferido para Piraquara.
De acordo com Jucimara, a situação começou a mudar após a morte de um adolescente na unidade em agosto, também por enforcamento. Jucimara diz que o padrasto deste rapaz ameaçou Erick porque ele, supostamente, teria confeccionado a teresa (corda improvisada com lençóis) usada no suicídio.
Outros internos também teriam responsabilizado Erick por essa morte. A mãe conta que a partir deste fato, Erick teve que cumprir a pena em isolamento. A faxineira conta que também se sentiu ameaçada e chegou a ser perseguida pelas ruas de Curitiba em uma visita ao filho. ''Fiquei por muito tempo apavorada. Quando não estava trabalhando, estava no Fórum para falar com a promotora. Queria que ele fosse transferido imediatamente. Infelizmente não deu tempo.''

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