Rio, 14 (AE) - A Secretaria Municipal de Trabalho cadastrou os moradores de 30 favelas do Rio e traçou o perfil de cada comunidade. A pesquisa mostra que as condições de saneamento básico são melhores do que as esperadas em áreas pobres: 94,9% das 41,2 mil casas são de alvenaria, 93,2% têm água canalizada e 87,3%, esgoto. Mas o índice de analfabetismo encontrado nessas comunidades dobra em relação ao restante do município, o desemprego nas favelas é 2,5 vezes maior do que na região metropolitana e a renda per capita de quem vive em favela representa a metade do que ganham moradores de outras áreas.
"Falta muita coisa para equiparar a qualidade de vida dos morador de localidade carente à do morador do asfalto", admite o secretário de Trabalho, André Urani. "Mas acredito que
a partir dessa base de dados, não se possa mais falar em favelas, mas em comunidades de baixa renda".
Vinte pesquisadores da Sociedade Científica da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Science) passaram um ano percorrendo as 30 favelas, na primeira fase da pesquisa - outras 60 ainda serão mapeadas. Eles cadastraram 158.781 moradores e encontraram 12,4% de analfabetismo entre os maiores de sete anos de idade (134.409 pessoas). Na favela Ladeira dos Funcionários, na zona norte, esse índice chega a 18,4%. A média é de 4,8 anos de estudo por morador. "É muito pouco, comparando-se à média do município, de 7,7 anos", afirmou o coordenador geral da pesquisa, José Matias de Lima.
O índice de desemprego, 13,1%, também foi considerado alarmante por Matias. Na faixa etária entre 18 a 39 anos, 15,3% estão em busca colocação - três vezes mais do que a taxa no restante do município, de 5,3%. "Esse é o momento da vida em que a pessoa está formando família; é um número expressivo e cruel", diz o pesquisador. Dezoito por cento dos jovens com idades entre 15 a 17 anos também se declararam em busca de emprego.
Entre os que conseguiram trabalho, 67,7% estão empregados na economia formal; 17% trabalham por conta própria e 12,6% são empregados domésticos. A maioria, 32,5%, trabalha mais de 44 horas por semana, mas 34,5% não têm carteira assinada. A renda per capita média é de 1,17 salários mínimos, mas em favelas como o Complexo do Sapê, ela cai para menos de de 1 mínimo (R$ 106,68). O Morro do Salgueiro, na Tijuca, zona norte, concentra tem os piores índices de qualidade de vida, segundo Matias.
As favelas abrigam 2.053 microempresas, empregando 3.256 pessoas. Apenas 6,42% dos comerciantes precisaram de algum tipo de crédito para abrir seus negócios. "Em geral, eles estão otimistas diante do futuro: 84,5% dos proprietários vão investir no seu negócio, mantê-lo ou diversificá-lo", afirmou Matias.
As comunidades pesquisadas fazem parte do programa de urbanização da prefeitura, o Favela-Bairro, que pavimentou ruas, retirou casas das chamadas áreas de risco e fez saneamento básico. Também foram desenvolvidos programas de capacitação de pessoal e geração de renda. Das 601 favelas do município, 105 participaram do programa.
O cadastramento derrubou mitos como o de que o favelado havia migrado: 74,3% deles nasceram no Estado do Rio e 10,57% moraram em outras comunidades.

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