Favelado e órfão vão receber a comunhão de João Paulo 2º
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sábado, 27 de setembro de 1997
Cláudia Mattos Agência Estado, Rio 
Arquivo FolhaManifestaçãoLogo em suas primeiras horas no Rio, João Paulo 2º verá uma manifestação de meninos na igreja da Candelária (ao fundo) - palco da chacina de oito meninos de rua em 93Os olhos de Leandro Diogo e de Eduardo Emílio nunca viram tanques nazistas e soviéticos invadindo sua cidade, como os de Karol Wojtila testemunharam um dia. Mas estão cansados de viver a guerra sem fim entre traficantes e policiais a um passo da linha de fogo dos fuzis. Além da memória da violência, esses três personagens têm em comum a fé católica, que os reunirá na passagem de João Paulo 2º pelo Rio. Leandro e Eduardo foram escolhidos pela Pastoral do Menor para receber a comunhão diretamente das mãos do papa.
Ambos com 15 anos, Leandro, morador da favela de Acari, e Eduardo, menino de rua acolhido pela Fundação São Martinho, ainda não se deram conta do privilégio que terão, capaz de fazer com que muitos católicos incorram no pecado da inveja. Tímidos, tanto um quanto o outro sorriem sem jeito antes de definirem a sorte que tiveram com um singelo é legal, né?
A timidez de Leandro, que trabalha na fabricação de vassouras no Centro Comunitário de Acari, beira o inacreditável. Quando lhe perguntaram se gostaria de receber a hóstia das mãos do papa na missa do Aterro do Flamengo, ele não respondeu nem sim, nem não. Pediu um tempo para pensar. Não queria decidir assim na hora, justificou Leandro, também auxiliar de catequese. Somente no dia seguinte, depois de uma noite de reflexão, disse sim.
Leandro foi uma escolha de todo o centro comunitário. Entre os fatores que a determinaram estão sua fé e sua responsabilidade com o trabalho, que já lhe valeu uma pequena promoção. Leandro é hoje o responsável pelo controle do almoxarifado da fábrica de vassouras, serviço pelo qual recebe meio salário mínimo.
Logo em suas primeiras horas no Rio, João Paulo 2º verá uma manifestação de meninos de rua. Quando o comboio do papa estiver passando pela igreja da Candelária, no Centro, oito menores da Casa de Acolhida do Catete, na zona sul, estarão no local para lembrar a João Paulo 2º de que aquele foi o palco da chacina de oito meninos de rua em 93. Ao lado deles estará Ricardo Dutra, hoje com 18 anos, um dos sobreviventes do massacre.
Os oito menores estarão segurando balões com os nomes de Marco Antônio da Silva, Valdecir Miguel de Almeida, Anderson de Oliveira Pereira, Paulo José da Silva, Paulo Roberto de Oliveira, Marcelo Cândido de Jesus, Leandro Conceição e Gambazinho, que nunca chegou a ter um nome, os oito mortos na chacina. No momento da passagem do papa, os balões serão soltos, enquanto Dutra soltará uma pomba branca simbolizando a paz.


