Fatasmas do nazismo ainda rondam a Europa
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sexta-feira, 20 de agosto de 1999
Por GILLES LAPOUGE, Correspondente 
Paris, 21 (AE) Ela é chamada de "peste marrom" ou "a internacional do ódio", ou "o fanatismo fascista" e todas essas expressões significam o mesmo perigo: a ressurreição dos micróbios que o mundo acreditava ter erradicado em 1945 com o fim de Hitler.
Mas essa erradicação não foi perfeita: da mesma forma que a tuberculose está voltando, cinco anos depois da penicilina e o Remifon, assim também os vírus nazistas estão borbotando e se cumpre a profecia de Bertolt Brecht: "É ainda fecundo o ventre de onde surgiu o animal imundo."
Um rápido giro pela Europa: cinco países estão pesadamente infectados: França, áustria, Itália, Bélgica (sobretudo a Flandres belga) e até mesmo a tranquila Noruega. Resistem à pestilência Holanda, Inglaterra, Espanha, Portugal e Grécia.
Dois casos singulares: a Islândia, onde não existe nem mesmo um único nazista declarado. E a Alemanha, onde os extremistas de direita não chegam ao ponto de perturbar o jogo eleitoral, mas onde campeia o "nazismo das ruas", às vezes selvagem.
É preciso, porém, fazer algumas ressalvas. Se na França a Frente Nacional de Jean-Marie le Pen conseguiu até este ano 15% dos votos, acaba de sofrer um desastre: uma disputa a dividiu em duas. Le Pen foi desafiado por seu assessor Christian Mégret. Resultado: nas eleições européias, a Frente Nacional está em ruínas. Mas não está morta. Ainda se mexe.
Os partidos fascistas são muito diferentes de um país para outro, mas todos têm um ponto em comum: a nostalgia da ordem fascista ou nazista. (Na áustria, Jorg Haider exalta a política econômica de Hitler.
Na Itália, Gianfranco Fini, desde suas primeiras manifestações, mostrava saudades de Mussolini. O francês Le Pen nega o Holocausto, considera seus amigos alguns ex-integrantes da SS nazista e vomita os judeus da mesma forma que os árabes.
Apesar disso, essa referência ao nazismo é cada vez mais velada, exceto no caso de Le Pen. Até mesmo o austríaco Haider conserva sua língua viperina. Na Itália, Fini deu a impressão de ter renegado o fascismo em 1995.
Os grupos de extrema direita se distanciam do francês Le Pen, por temerem que as repugnantes amizades do líder da FN os salpiquem de lama.
Isso confirma que o "neofascismo" renunciou à ação violenta, à ruptura, ao "golpe de Estado". Ele entrou no jogo da democracia parlamentar. Até mesmo Le Pen dirige um partido legal.
Em vez de contar com o poder explosivo, fulminante, de um grupo muito minoritário, excessivamente brutal para usurpar o poder pela força, todas as organizações de extrema direita escolheram o caminho parlamentar.
Isso supõe partidos bem organizados, convenientes na aparência, ricos e numerosos. Na França, até os últimos três meses, Le Pen liderava a direita clássica.
No país flamengo, uma cidade enorme, chamada Antuérpia, viu em junho de 1999 um entre cada três eleitores votar a favor dos fascistas do "Vlaams Blok". Na áustria, os Freiheitlichen (ex-PFO) acreditaram em certo momento que poderiam levar Haider à presidência da república. Será possível explicar estas febres? Observemos que elas se desenvolvem 50 anos depois do fim do nazismo.
Duas gerações. É como se os filhos dos fascistas de 1940 tivessem ficado fartos da cultura da morte e do homicídio e portanto vacinados, enquanto os netos, ao contrário, tivessem ficado obscuramente fascinados pela aventura fascista ou nazista de seus avós (a herança transmite-se do avô ao neto, e não do pai ao filho. Freud teria algo a nos dizer).
Seja como for, o mistério é denso. Mas vale a pena comparar o itinerário de cada um destes países. Todos os êxitos extremistas ocorreram nos países onde se encontra um líder carismático.
Nada de mais normal para um partido fascista: a personalidade sagrada do "chefe", do "fuhrer", é determinante. Le Pen, Haider, Fini ou Karem Dillen em Flandres são pessoas de grande talento. Ao contrário, na Alemanha, não se viu nem um único líder de forte estatura.
Um olhar para a situação atual dos países que, ao contrário, possuem defesas imunológicas sólidas contra o micróbio: em primeiro lugar a Inglaterra, mas, para parafrasear o título de um filme de Jean-Luc Godard, o fato é que a "Inglaterra é a Inglaterra". Entre os outros resistentes ao fascismo encontramos três países onde a situação econômica ou social foi durante muito tempo desastrosa: Espanha (que começa a sair do marasmo), Portugal e a Grécia. O caso destes três países torna, portanto, inacreditável a tese aceita, segundo a qual o impulso do fascismo se explicaria pelo desemprego, pela decadência econômica: os três alérgicos ao fascismo são três países muito pobres.
Espanha, Grécia e Portugal conheceram durante muito tempo regimes totalitários. A democracia foi reintroduzida nestes países há pouco tempo. Por isso, os cidadãos não tiveram ainda tempo de se cansar dessa "dança de roda" de deputados inúteis, deste vai-e-vem de palermas velhos, ou nulos, ou corruptos, "intercambiáveis" e inamovíveis, quer sejam de direita ou de esquerda...
Depois de 50 anos desta fúnebre dança parlamentar, a democracia já cansa uma parte dos europeus. Jamais a profissão política foi tão desacreditada e, nestas paisagens mornas e sem cessar repetidas, os jovens manifestam seu temor, seu desagrado.
E prestam ouvidos àqueles que propõem uma mudança radical, os fascistas.
Esse descrédito dos partidos tradicionais explica que os extremistas tenham modificado seus programas há 50 anos. Hoje, eles se voltam para a identidade nacional: o ódio ao estrangeiro
a nostalgia de um líder, de um "fuhrer", o retorno à hierarquia, à moralidade e aos valores tradicionais (as raízes, a terra, etc....)
Uma curiosidade recente: desde que o medo do comunismo se tornou uma coisa sem sentido (1990) os fascismos se transformaram numa nova repulsão: a aversão contra os americanos
cujo multiculturalismo, liberalismo e globalização são desprezados.
Nacionalistas, eles preconizam o protecionismo externamente e o liberalismo internamente. Rejeitam a Europa cosmopolita de Maastricht, sua burocracia, sua ausência de "alma". O esquecimento de 2000 anos de guerra e de patriotismo que forjaram as "nações". Neste quadro, é preciso voltar à exceção, que é a Alemanha. Nenhum grande partido extremista consegue manter-se neste país. Faz uma arrancada, mas depois sucumbe, por falta de chefes, de unidade e de respaldo social. Apesar disso, o perigo não está ausente.
O perigo é duplo. Em primeiro lugar, vem da Alemanha Oriental, acostumada a 50 anos de totalitarismo soviético, menos rica que a Alemanha Ocidental, menos elegante, menos evoluída e cheia de rancores e de fel. As eleições na Baixa Saxônia, no ano passado, deram ao partido de extrema direita, o DVU, 13% dos votos.
E há ainda uma coisa mais angustiante: na falta de uma organização nacional respeitável, os neonazistas exprimem-se de maneira visceral. A Alemanha é o país que conta com o maior número de atentados racistas ou nazistas, atentados frequentemente mortíferos (isso acontece um pouco em toda a parte, mesmo na Inglaterra onde os skinheads dos estádios de futebol frequentemente são fascistas, mas, seja como for, em grau menor que na Alemanha).
E depois, na Alemanha, embora também em toda a Europa, há um novo e terrível perigo: a Internet. Assistimos à eclosão de centenas de sites neonazistas que ultrapassam as fronteiras, uma comunidade da noite, na qual as mensagens loucas infestam minorias cada vez mais numerosas. Esses sites dão ânsias de vômito.
Alguns se contentam em celebrar o Terceiro Reich, o Holocausto. Outros explicam a fabricação de explosivos, propõem associações entre quadrilhas, apelam para o assassinato dos judeus, dos ciganos, dos árabes e dos negros.
Existe um esforço para levantar uma barragem contra esta infâmia obscena, mas, como no caso da pedofilia, a Internet frequentemente burla todos os controles.


