O diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Jacques Diouf, disse ontem que o Brasil tem papel importante no programa mundial de combate à fome, não apenas por suas dimensões, mas pela possibilidade do uso da terra e da água. Porém, ele aponta como um dos principais problemas brasileiros a dificuldade de acesso à terra, bem como à tecnologia e aos mercados para que o produtor possa ter renda.
Ao ser recebido pelo vice-presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Nuri Andraus, Jacques Diouf deixou clara a preocupação de sua instituição com a disponibilidade de água no mundo para que as pessoas possam produzir e ter alimentos.
Diouf lembrou que o compromisso assumido por chefes de Estado de todo o mundo na Cúpula Mundial de Alimentos, organizada em novembro do ano passado pela FAO, foi de reduzir à metade a população mundial que passa fome, estimada em mais de 800 milhões de pessoas. Disse que os países-membros da FAO deverão fazer programas-piloto para aumentar a produtividade e o controle da água no mundo, com a utilização de sementes de qualidade, fertilizantes e sistemas de controle biológicos. Ele pediu o apoio da CNA nas atividades técnicas da agropecuária para o aumento da produtividade brasileira.
Nuri Andraus disse que a abrangência da CNA poderá ajudar os produtores brasileiros, já que a entidade está presente em mais de dois mil municípios. Jacques Diouf lembrou das dificuldades do País na área sanitária, que impedem a exportação de produtos e também do desperdício na produção. Recomendou uma diversificação da produção de pequenos agricultores com a criação de pequenos animais para garantir o sustento das famílias.
Diouf deixou claro que a FAO não quer apenas doar alimentos, mas ajudar as pessoas a produzirem com tecnologia adequada para não depender da caridade de outras. Reconheceu que muitos países no mundo continuam a subsidiar as exportações e disse esperar que haja um equilíbrio no mercado internacional o mais breve possível. A FAO já identificou 82 países, dos quais a metade na África e quase um quarto na Ásia, onde a segurança alimentar requer e justifica sua prioridade.
Reforma agrária - O ministro da Reforma Agrária, Raul Jungmann, assumiu ontem em Boa Vista do Tupim (BA) o discurso do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. ‘‘A reforma agrária que se fez até aqui não é decente e precisa melhorar muito’’, disse o ministro, antes de assinar a declaração de desapropriação da Fazenda Agro Pecuária Beira Rio.
Com 10.765 hectares, a fazenda pertence ao grupo Econômico - controlado pelo ex-banqueiro Angelo Calmon de Sá - mas está indisponível por determinação do Banco Central. Outras nove fazendas do grupo também deverão ser desapropriadas pelo governo ainda este ano. Em seu discurso de 20 minutos, o ministro gritou pelo menos cinco vezes as principais palavras de ordem do MST -‘‘Reforma Agrária Jᒒ. Segundo Raul Jungmann, o governo federal vai transferir para os trabalhadores as terras dos banqueiros falidos. ‘‘É isso que o governo vai fazer’’, disse o ministro.
O ministro discursou para cerca de 300 sem-terra em cima da carroceria de um caminhão e disse também que a próxima meta do governo é desapropriar as terras dos devedores do Banco do Brasil. ‘‘Se a gente não merece passar fome, muito menos nossos filhos’’, disse o ministro. Segundo Raul Jungmann, somente na Bahia existem cerca de 80 mil hectares de inadimplentes do BB. ‘‘O presidente Fernando Henrique Cardoso vai desapropriar as terras dos latifundiários improdutivos, que sempre se aproveitaram do governo para conseguir financiamentos.’’

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