FAO questiona acesso à terra no Brasil
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quarta-feira, 26 de março de 1997
Das agências, de Brasília 
O diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Jacques Diouf, disse ontem que o Brasil tem papel importante no programa mundial de combate à fome, não apenas por suas dimensões, mas pela possibilidade do uso da terra e da água. Porém, ele aponta como um dos principais problemas brasileiros a dificuldade de acesso à terra, bem como à tecnologia e aos mercados para que o produtor possa ter renda.
Ao ser recebido pelo vice-presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Nuri Andraus, Jacques Diouf deixou clara a preocupação de sua instituição com a disponibilidade de água no mundo para que as pessoas possam produzir e ter alimentos.
Diouf lembrou que o compromisso assumido por chefes de Estado de todo o mundo na Cúpula Mundial de Alimentos, organizada em novembro do ano passado pela FAO, foi de reduzir à metade a população mundial que passa fome, estimada em mais de 800 milhões de pessoas. Disse que os países-membros da FAO deverão fazer programas-piloto para aumentar a produtividade e o controle da água no mundo, com a utilização de sementes de qualidade, fertilizantes e sistemas de controle biológicos. Ele pediu o apoio da CNA nas atividades técnicas da agropecuária para o aumento da produtividade brasileira.
Nuri Andraus disse que a abrangência da CNA poderá ajudar os produtores brasileiros, já que a entidade está presente em mais de dois mil municípios. Jacques Diouf lembrou das dificuldades do País na área sanitária, que impedem a exportação de produtos e também do desperdício na produção. Recomendou uma diversificação da produção de pequenos agricultores com a criação de pequenos animais para garantir o sustento das famílias.
Diouf deixou claro que a FAO não quer apenas doar alimentos, mas ajudar as pessoas a produzirem com tecnologia adequada para não depender da caridade de outras. Reconheceu que muitos países no mundo continuam a subsidiar as exportações e disse esperar que haja um equilíbrio no mercado internacional o mais breve possível. A FAO já identificou 82 países, dos quais a metade na África e quase um quarto na Ásia, onde a segurança alimentar requer e justifica sua prioridade.
Reforma agrária - O ministro da Reforma Agrária, Raul Jungmann, assumiu ontem em Boa Vista do Tupim (BA) o discurso do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. A reforma agrária que se fez até aqui não é decente e precisa melhorar muito, disse o ministro, antes de assinar a declaração de desapropriação da Fazenda Agro Pecuária Beira Rio.
Com 10.765 hectares, a fazenda pertence ao grupo Econômico - controlado pelo ex-banqueiro Angelo Calmon de Sá - mas está indisponível por determinação do Banco Central. Outras nove fazendas do grupo também deverão ser desapropriadas pelo governo ainda este ano. Em seu discurso de 20 minutos, o ministro gritou pelo menos cinco vezes as principais palavras de ordem do MST -Reforma Agrária Já. Segundo Raul Jungmann, o governo federal vai transferir para os trabalhadores as terras dos banqueiros falidos. É isso que o governo vai fazer, disse o ministro.
O ministro discursou para cerca de 300 sem-terra em cima da carroceria de um caminhão e disse também que a próxima meta do governo é desapropriar as terras dos devedores do Banco do Brasil. Se a gente não merece passar fome, muito menos nossos filhos, disse o ministro. Segundo Raul Jungmann, somente na Bahia existem cerca de 80 mil hectares de inadimplentes do BB. O presidente Fernando Henrique Cardoso vai desapropriar as terras dos latifundiários improdutivos, que sempre se aproveitaram do governo para conseguir financiamentos.


