Famílias sem-terra do MS prometem agir contra falta de comida
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de julho de 1999
Por João Naves de Oliveira (especial para a AE) 
Campo Grande, 18 (AE) - Quase 5 mil famílias de sem-terra acampadas entre Naviraí e Itaquiraí, no extremo Sul de Mato Grosso do Sul, estão prometendo várias ações em protesto contra a falta de alimentos.
Segundo os líderes, há dois meses não chegam as cestas básicas do programa Comunidade Solidária e adultos e crianças estão passando fome. Segundo o coordenador da Central Única de Trabalhadores (CUT), Paulo Sérgio Farias, a disposição dos sem-terra é invadir fazendas, bloquear a Rodovia BR-163, principal corredor rodoviário da região, e, se tiverem oportunidade, saquear caminhões que transportam alimentos.
Durante a semana passada, eles fizeram três tentativas de invasões e foram frustradas com reação de capangas de fazendeiros. Na Fazenda Santa Cruz, em Aral Moreira, na mesma região, um grupo de 150 famílias de sem-terra foi repelido a tiros e um deles teve ferimento na cabeça, por bala de espingarda de pressão.
Em Ponta Porã, os sem-terra estão montando acampamento nas proximidades da Fazenda Itamaraty, propriedade do ex-banqueiro Olacyr de Morais. Eles acreditam que, até o fim de agosto, o governo federal possa decretar a desapropriação do imóvel. No mesmo município, os sem-terra disputam áreas com os índios guarani-caiuás, que também estão passando necessidades pela falta de alimentos.
Na localidade conhecida como Lixão, sem-terras e índios disputam espaço no acampamento, onde a Secretaria Municipal de Saúde de Ponta Porã constatou que 40 índios e sem-terra estão doentes. Os sintomas que indicam pneumonia e desnutrição em alto grau.
O ambiente é muito tenso, de acordo com o presidente regional do Movimento Nacional dos Produtores Rurais, Renato Merem. Ele adiantou que, no dia 29, vai reunir em Campo Grande pelo menos 6 mil fazendeiros, para um grande protesto contra toda essa situação.
Automóveis, utilitários, caminhões, tratores, carroças e centenas de pessoas a pé percorrerão toda a área central de Campo Grande, protestando contra a instabilidade no campo.
Merem lembrou que, somente este ano, 59 fazendas foram invadiras no Mato Grosso do Sul. Ele prevê ainda que pelo menos outras 25 estão na mira dos invasores, que prometem tomar conta de cada uma delas até o fim de agosto. A manifestação dos fazendeiros, marcada para o dia 29, servirá de ensaio para o Encontro Nacional de Produtores Rurais, que acontece dia 16, em Brasília, ponto final do Caminhonaço, protesto que reúne produtores de todo Brasil.


