São Paulo, 01 (AE) - Dentro do ônibus mal iluminado, nos primeiros minutos da madrugada de hoje, 12 ex-moradores do Morro da Lua permaneceram em silêncio durante o trajeto entre a área de risco - desocupada por bombeiros e funcionários da Prefeitura - e o salão mantido pela Igreja Batista do Morumbi, onde passariam o restante da noite. Para trás, deixaram barracos destruídos e os poucos bens acumulados.
A opção de ocupar barracas de lona, oferecidas pela Defesa Civil, foi vista com desconfiança pela maioria, que preferiu ficar alojada em casas de parentes ou vizinhos. Desconfiados, eles queriam primeiro conhecer as acomodações de lona, antes de aceitar a mudança. "Precisamos saber onde querem colocar a gente", dizia a dona de cada Mírian Campos, de 40 anos, com o filho Guilherme, de apenas 3, nos braços. Risco - Tinham razão para desconfiar. O próprio chefe de supervisão do Serviço Público da Administração Regional do Campo Limpo, Adão Rodrigues da Silva, não descarta a possibilidade de que uma chuva inunde o campo de futebol do Cafuringa, no bairro Mitsutani, para onde as famílias estão sendo removidas as famílias. "Tem risco", admitiu. "Pode encher de água o local", afirmou o encarregado, ressaltando que o certo seria fazer canaletas para dar vazão à água.
As famílias foram levadas para um abrigo provisório por cinco dias e estão em barracas da Defesa Civil. Até o fim da tarde haviam apenas 6 das 30 barracas estavam montadas. Também foram instalados dez banheiros. Chuveiro, nenhum. O encarregado da AR defende-se: "A regional já cumpriu o seu papel", disse. "Eles vão ter de tomar banho de canequinha". Quanto ao perigo de inundações, Silva garantiu: "Estão melhor aqui do na favela." Vizinhos - Terezinha Rodrigues da Silva, de 50 anos, não conseguiu disfarçar a decepção. Com colchões espalhados pelo chão de grama, Terezinha arrumava o interior da barraca com os olhos cheios de água. "A Prefeitura tirou a gente do lodo e mandou para a lama". Para o desempregado Helton Oliveira de 18 anos, que estava no abrigo com sua família, a prefeito (Pitta) desocupou uma favela para construir outra pior.
Para piorar a situação, os vizinhos do local criticaram a Prefeitura, por temer aumento no número de crimes na região. "A Prefeitura não faz nada por nós e agora trouxe a insegurança para o bairro", disse a dona de casa, Maria de Fátima Aparecida
de 56 anos. Cadastramento - A AR do Campo Limpo passou o dia cadastrando as famílias do Morro da Lua. Das 30 famílias que ainda permanecem em áreas de risco 12 prontificaram-se a ir para abrigos.