Londrina - Por trás das lágrimas nos olhos de Cristina*, de 43 anos, há uma história de dor e arrependimento. As mãos trêmulas trazem unhas pintadas que mostram que a vaidade persiste a todo o sofrimento. Cristina foi usuária de drogas por pelo menos 17 anos e conta como decidiu abandonar o vício.
''Vieram juntas a meningite e a herpes, fiquei quatro dias quase morta. Tive várias convulsões. Minha mãe me perguntou o que eu queria da vida. Decidi seguir um novo caminho'', lembrou.
Este caminho sem drogas também está sendo buscado por Kelly, 50. Ela conheceu as drogas há 12 anos e, após dois anos usando cigarro, maconha, álcool e crack, dedidiu parar. ''Acabei ficando quatro anos sem droga até que tive uma recaída, mas foi pior porque agora me tornei dependente do crack'', lamentou ela, que diz acordar e dormir pensando na droga.
O primeiro contato de Cristina com a droga aconteceu quando ela tinha cerca de 15 anos, mais ou menos na mesma época em que teve o primeiro dos três filhos. ''Eu e meu marido usávamos crack e cocaína. Meus dois filhos mais velhos, que hoje já são adultos, foram criados pela avó'', contou emocionada. Ela diz que a droga impedia o sentimento de mãe para com os filhos.
Esta também era uma rotina na vida de Kelly, dependente de crack há quatro anos. ''Devo ter fumado umas duas casas inteiras, de tanto dinheiro que gastei'', lembrou. Ela disse gastava em droga todo o dinheiro da pensão que recebe pela morte do marido. ''Não sobrava nem pra comida''. O resultado foram as perdas. ''Meus filhos e minha mãe se afastaram de mim. Eu morava sozinha e era cercada por outros ''noias'', completou.
Kelly disse que só decidiu mudar de vida quando o filho mais velho, que está preso, a repreendeu. Ela passou a viver com a mãe e o filho mais novo. Apesar de tanto esforço, a droga, que é usada a cada 15 dias quando não aguenta mais, ainda faz falta. ''Hoje, quando recebo a pensão, pago as contas, e ajudo meu filho que está preso. Já diminuí meu uso em 90%'', comentou. Para ela a droga é pior que uma doença, porque tem tratamento, mas não tem cura.
A vida de Cristina também não é fácil. Ela mora na Zona Leste de Londrina, onde divide a casa com a mãe, o filho de 7 anos (com quem está aprendendo a ser mãe) e o irmão. ''Eu e minha mãe cuidamos uma da outra e juntas protegemos o menino'', declarou. Para ela, relembrar sua história é motivo de sofrimento. ''O que ficou disso tudo são as convulsões, a tristeza, o arrependimento e o esquecimento das coisas, que por um lado acho bom porque devo ter esquecido de muita coisa ruim. Eu poderia ter vivido de um jeito diferente'', concluiu.
Kelly e Cristina têm certeza que o amor da família as mantêm longe das drogas. Kelly está reconquistando a confiança dos familiares e disse que não quer mais perder os almoços em família. Já Cristina sabe que um futuro diferente para o seu filho depende das atitudes dela hoje.
* Os nomes usados nesta reportagem são fictícios.

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