Famílias que voltam do Japão sofrem para se readaptar
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 03 de fevereiro de 2014
Fábio Galão<br>Reportagem Local 
Londrina - Com a crise econômica no Japão a partir da segunda metade dos anos 2000 e o terremoto e o tsunami de 2011, muitos brasileiros que haviam emigrado para o país asiático começaram a retornar. Não há números oficiais de quantos voltaram, mas as estimativas do Itamaraty das comunidades brasileiras no exterior dão uma ideia do tamanho desse movimento de regresso. Em 2009, havia aproximadamente 280 mil brasileiros morando no Japão. Em 2012, essa comunidade havia diminuído para cerca de 210 mil pessoas.
Se o retorno já é problemático para pessoas que foram para o Japão adultas, visto que na volta muitas vezes têm que se readaptar às diferenças culturais e ao padrão de vida e enfrentar o fantasma do desemprego, imagine para as crianças e adolescentes que nasceram e/ou foram criadas no Oriente e que têm poucas ou nenhuma referência da realidade brasileira. Essa preocupação com as famílias em regresso está no centro de duas iniciativas em estudo nas universidades Federal do Paraná (UFPR) e Estadual de Londrina (UEL).
Estela Okabayashi Fuzii, diretora do Núcleo de Estudos da Cultura Japonesa da UEL, pretende criar um projeto para prestar informações e apoio a famílias que retornam do Japão para o Brasil. Ela relata que teve a ideia a partir dos contatos que mantém com dekasseguis no seu trabalho na Aliança Cultural Brasil-Japão, em Londrina, e no Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador no Exterior (Ciate), em São Paulo.
O foco do projeto seriam as crianças e adolescentes das famílias regressantes. "Muitos chegam sem abrir a boca porque não sabem nada de português. Outros entendem um pouco, mas choram porque se sentem desadaptados à escola, ao ambiente, à cultura, ao comportamento", explica a professora. O início do projeto depende de uma definição do espaço físico onde as ações serão desenvolvidas.
A consultora de vendas Érica Fernanda Skiba foi morar no Japão no ano 2000 com o marido e o filho, que tinha apenas quatro meses de idade. Lá, o casal teve outra filha. A família voltou após o terremoto de 2011. Os dois filhos, Lucas e Natália, hoje têm respectivamente 13 e cinco anos. Érica relata que, por ter vindo ao Brasil muito nova, Natália não teve tantas dificuldades de adaptação. Para Lucas,
a mudança foi mais complicada.
"Ele não falava português. Sentia vergonha na escola, porque não entendia o que falavam. A professora não o aceitou na sala: disse que não queria um aluno que não entendia o que ela estava falando e que ele tinha que voltar para o primeiro ano. Ele tinha 11 anos! Paguei aulas de reforço no contraturno e o Lucas conseguiu se recuperar. Foi aprendendo, gostando do Brasil, vendo as diferenças. Foi difícil, foi sofrido, mas ele conseguiu superar", comemora Érica.
A dona de casa Cláudia Keiko Miazato Mizuta morou 21 anos no Japão, onde conheceu o marido, que também é brasileiro descendente de japoneses, e onde nasceram os dois filhos do casal, Karen, de 15, e Yuki, de 13. A família veio para o Brasil em 2011, afetada pela crise. "Foi difícil principalmente por causa das crianças. Viemos sem preparação, meio de repente", lembra Cláudia.
"Eles (os filhos) são tímidos. No Japão, eles estavam em um meio em que sabiam o idioma e onde sempre viveram. Minha filha ainda conhecia um pouco de português, porque estudou meio ano no Brasil em 2006, mas para o meu filho foi mais difícil. Nós matriculamos os dois em escola pública e acreditamos que eles poderiam superar. A escola nos ajudou muito", diz Cláudia. Karen e Yuki tiveram que fazer aulas de reforço de português. Outros obstáculos foram a sensação de falta de segurança, as diferenças culturais, a comida. A família chegou a pensar em voltar ao Japão, mas desistiu. "Acho que a pior fase já passou", acredita Cláudia.
A estudante Pâmela Hitomi Kussano morou no Japão entre 2003 e 2009. Ela e o marido, Marlon, que hoje trabalha como vigilante, decidiram retornar devido à crise econômica japonesa. Os três filhos do casal, Maria Eduarda, Giovanna e Daniel, hoje com idades entre cinco e sete anos, nasceram no Japão.
Pâmela relata que, por serem muito novas quando vieram para o Brasil, as crianças não sofreram muito com a mudança de idioma. A dificuldade foi conseguir tratamento para Daniel, que sofria de dermatite atópica. No Japão, a família pagava o chamado seguro-saúde ("praticamente um valor simbólico", diz Pâmela), e o serviço custeava o tratamento e os medicamentos. No Brasil, foi necessário recorrer ao Sistema Único de Saúde (SUS).
"Mas tudo demorava muito. A pele do Daniel chegou a ficar em carne viva. A Giovanna também tinha dermatite atópica, mas não era tão grave", lembra Pâmela. A família acabou desistindo do SUS. Uma dermatologista, prima de uma prima de Pâmela, se propôs a atender Daniel gratuitamente, e familiares juntaram dinheiro para comprar os medicamentos.


