São Paulo, 27 (AE) - As 88 famílias que moram na Vila Triângulo, localizada no terreno da antiga Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus, correm o risco de ser despejadas. Desde 1924 - época da inauguração da fábrica -, as casas foram construídas para facilitar o dia-a-dia dos trabalhadores e repassadas por comodato verbal - empréstimo gratuito para os antigos moradores.
Em 1992, o terreno da fábrica - desativada desde 1986 - foi tombado pelo patrimônio histórico da Prefeitura. As moradias seriam preservadas. Alegando que não recebeu indenização, o antigo proprietário, o Grupo Chohfi-Abdalla, reassumiu a posse da área em 1995. Exige agora a reintegração de posse das casas.
"Precisávamos organizar, administrar a área e evitar invasores, que estavam tomando conta do local", afirma a advogada do grupo, Simone Bichara. Segundo ela, em 1995 o terreno de 584 mil metros quadrados parecia uma "terra de ninguém", pois muitos funcionários antigos teriam vendido as casas a amigos por preços irrisórios. "Foi uma atitude ilegal, uma vez que eles nunca foram proprietários", alega. "No entanto, não há intenção de desalojá-los."
"Coação" - A notificação de despejo recebida pelo morador José Romanelli, há mais de um mês, contradiz as palavras da advogada. Há cinco anos ele paga R$ 100,00 pelo aluguel de uma casa de dois dormitórios, sala, cozinha e banheiro. "Estou indignado", protesta.
A falta de informação e o medo de serem obrigadas a sair fizeram com que 73 das famílias residentes no local "optassem" por pagar aluguel aos antigos proprietários. "Em 1995, a advogada forçou-nos a assinar o contrato de locação num prazo de 15 dias", reclama Maria Cristina dos Santos, de 37 anos, que mora na Vila desde que nasceu. O contrato vence no fim de 2001 e muitos receiam que não vá ser renovado. As outras 15 famílias entraram este ano na Justiça para garantir o direito de moradia.
Elas têm o apoio, desde o início do ano, do advogado Márcio Pucú. "São todos posseiros de boa fé e encontram-se por lá há muitos anos", explica. "Por isso, estou movendo uma ação de usucapião."
Pucú acredita que as 73 famílias inquilinas foram coagidas pela advogada dos proprietários e, portanto, perderam o direito de posse do terreno. "Assinando o contrato de locação, anula-se o benefício como posseiro, transformando-o automaticamente em locatário", afirma. "Dessa forma, ele fica à mercê da vontade dos locadores."
Os moradores que resistiram a assinar o contrato resolveram criar a Associação dos Moradores da Vila Triângulo e Adjacências. Em 1992, com o tombamento do terreno, a prefeita Luíza Erundina criou um projeto cultural na área para utilização da comunidade. Para prosseguir com a iniciativa, foi criada a Comissão Pró-Centro de Cultura Operária-Perus.
De acordo com a nova entidade, os prédios e instalações se destinariam a um centro de cultura e lazer semelhante ao do Sesc Pompéia. Os moradores continuariam vivendo no local.
Inaugurada em 1924, a Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus pertenceu a canadenses até 1950, quando foi vendida ao Grupo Abdalla (posteriormente denominado Chohfi-Abdalla). A casas foram construídas para os trabalhadores. A Vila Triângulo destinava-se aos menos qualificados. Dos salários, descontava-se uma taxa simbólica. Desde que o então deputado estadual José João Abdalla comprou a fábrica, houve cinco greves - entre elas a mais demorada da história do Brasil: durou sete anos, entre 1962 e 1969.
Em 1981, o governo federal confiscou a fábrica, por dívidas com a União e por ações trabalhistas desde 1962. Dois anos depois, foi leiloada. Segundo representantes do sindicato dos trabalhadores, nas 24 horas de prazo do leilão Abdalla associou-se a Sérgio Chohfi para arrematarem a companhia. Em março de 1987 foram demitidos mais de 300 funcionários. A fábrica foi fechada.

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