São Paulo, 08 (AE) - As cerca de 80 famílias de sem-teto que estavam acampadas no Largo São Francisco, no centro, decidiram enfrentar o governo e invadiram, na madrugada de hoje, o casarão da Rua do Carmo, de propriedade da Secretaria Estadual da Fazenda. O local, palco de tumultuada reintegração de posse há dois anos, foi cercado prontamente pela Tropa de Choque e começou a ser esvaziado no início da noite.
O casarão abandonado foi escolhido a dedo pelo grupo, que permaneceu em um prédio da Avenida Ipiranga cinco meses e, desalojado, montou acampamento no Largo São Francisco. "Eles não ligaram quando estávamos ao relento, mas no prédio deles a coisa muda", disse Dimas Antunes, líder do Movimento de Moradia Novo Centro. "Ainda mais aqui, que é a menina dos olhos do governo."
A provocação deu certo, mas terminou em acordo. O governo do Estado, que durante a tarde informara que entregaria o pedido de reintegração de posse apenas hoje, conseguiu determinação judicial que permite a retirada de invasores até 24 horas depois da ocupação e acionou o Choque. As famílias alegaram não ter como resistir aos 200 soldados.
Retiraram seus pertences e deveriam ser encaminhadas, por volta das 20 horas, para abrigos no Terminal Turístico do Parque Dom Pedro. No meio da confusão, uma jovem entrou em trabalho de parto. Eliane Cristina de Oliveira, de 25 anos, foi levada às pressas para o Pronto-Socorro Vergueiro.
O grupo vem há tempos tentando um acordo com a Secretaria da Habitação. Como forma de pressão, ocuparam por cinco meses um prédio de 19 andares na Avenida Ipiranga.
No Largo São Francisco desde o dia 25, conseguiram, após reunião com a Secretaria da Habitação, um terreno em São Miguel Paulista, que seria cedido pelo governo, mas recusaram.
"Esperamos que, ocupando esse prédio, as autoridades venham com uma solução decente para a gente", disse o líder Antunes, no início do dia. Ele lembrou que o grupo não pretende ser radical, por isso optou por um imóvel público. "Estamos sem perspectivas, pois o governo não toma providências em relação aos cortiços", reclamou, referindo-se ao Plano de Atuação em Cortiços (PAC). A Secretaria de Habitação informou que o PAC está sendo cumprido dentro do cronograma.
O casarão da Rua do Carmo é sempre lembrado pelos grupos de sem-teto que pretendem mobilizar as autoridades. Em 1997, cerca de mil pessoas nessas condições, ligadas ao Fórum dos Cortiços, viveram 50 dias de tensão na casa.
Atendimento - A Fazenda exigia a retirada dos sem-teto alegando necessitar do casarão para transformá-lo em ponto de atendimento ao contribuinte. A reintegração demorou mais de 13 horas. Até agora, a protelada reforma não saiu do papel. Hoje, a Assessoria de Imprensa da secretaria afirmou que a concorrência para a execução dos trabalhos deve ocorrer no fim do mês.
Do lado de dentro da construção de dois andares, o dia foi tenso - e trabalhoso. Os colchões dos sem-teto ainda estavam amarrados com cordas e os pertences, dentro das caixas improvisadas de papelão. Os invasores não tinham coragem de transformar o prédio abandonado em lar, quase prevendo a remoção.
"Não sei quanto tempo vou ficar; depois me apego e é uma choradeira", explicou Maria Aparecida da Silva, de 55 anos, há seis meses filiada ao Movimento de Moradia Novo Centro, desde que vendeu o barraco, por R$ 600,00.

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