Famílias garantem ''mistura'' no lixo
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quarta-feira, 18 de julho de 2001
Cláudia LopesDe Londrina 
Num país onde 50 milhões de pessoas são indigentes, vasculhar sacos de lixos na rua atrás de restos de alimentos virou cena rotineira. Em Londrina, várias famílias costumam recolher diariamente verduras e frutas amassadas, descartadas por um supermercado no centro da cidade.
Na última segunda-feira à noite, a desempregada Ana Maria Luciano, de 46 anos, selecionava no lixo do mercado os restos de alimentos que se transformariam nas únicas misturas das refeições de sua família nesta semana. Os cinco adultos que moram em sua casa, no Jardim União da Vitória (zona sul), estão desempregados.
A desempregada recolheu tomate, alface, batata, uva, pepino e cebola. Em casa, moramos em dez pessoas e ganhamos duas cestas básicas por mês, contou. Eu já até desisti de procurar emprego como diarista. As coisas estão muito difíceis, reclamou.
Embora maltratadas, essas pessoas ainda se preocupam em ser solidárias com seus semelhantes como é o caso da catadora de papel Margarete Ramos da Silva, de 57 anos, que todos os dias divide com seus vizinhos as frutas e verduras que consegue no lixo.
Moradora de uma invasão no conjunto habitacional Pindorama, na zona oeste, ela deixou de trabalhar como cozinheira há três anos, depois de ter contraído hepatite B. Seu rendimento de R$ 180 por mês é usado no pagamento de contas como água e luz da casa onde reside junto com a filha e o genro, ambos desempregados. No Brasil só não tem emprego porque os governantes não querem.
O catador de papel Luiz Cláudio Pereira, de 25 anos, também sobrevive das sobras do supermercado. Todo o dia eu como alface, uva, batata e maçã. Mas minha mãe dá um pouco para os vizinhos, senão estraga, contou ele, que ganha cerca de R$ 180 por mês. Com o dinheiro eu pago água, luz e outras contas. Não sobra pra mais nada, afirmou. Sem nunca ter estudado, Pereira se conforma com a situação. Com Deus a gente vai levando. Mas é uma pena que os políticos do Brasil não pensem no povo, desabafou.


