São Paulo, 28 (AE) - As 23 mortes resultantes de quatro chacinas, desde dezembro, estão provocando uma debandada na Favela Paraguai, na Vila Prudente, zona leste de São Paulo. Cansadas de assistir às sucessivas matanças e, principalmente, temendo ser as próximas vítimas, dezenas de moradores abandonam suas casas às pressas.
O medo é justificado. Segundo os moradores, desde sexta-feira, data da última chacina, ligações anônimas estão sendo feitas para o orelhão da favela com uma ameaça clara: quem permanecer no local será morto e terá os barracos incendiados. Acostumados aos métodos das quadrilhas de traficantes, os moradores não se arriscam a duvidar.
Só hoje, pelo menos dez famílias foram vistas retirando os pertences dos barracos, em caminhões de frete. "Já cansei de ficar pensando quem pode ser o próximo", disse um morador que carregava sua mudança, ajudado pela mulher e dois filhos. Assim como os demais entrevistados pelo Estado, ele não deu o nome.
A fuga ocorre mesmo diante da incerteza do local para onde ir. "Não sei para onde vamos", disse outro morador, que punha uma geladeira num caminhão. "Só quero ficar longe daqui". O destino de muitos era a casa de parentes em outras favelas ou mesmo a rua. "Tem gente que está catando viadutos para morar", disse um homem, que continua na favela com a mulher e três filhos, entre eles um bebê. "Um dos telefonemas dizia que não iam poupar nem as crianças, mas o que vou fazer?"
Aluguel - Trabalhando como faxineira, salário de R$ 150,00, uma senhora queixou-se à reportagem. "Os aluguéis mais baratos custam R$ 250,00; como vou pagar e ainda comer?" Quando sai para trabalhar, ela deixa duas filhas sozinhas em casa. "Fico com o coração na mão, mas não tenho escolha". Algumas mulheres e crianças refugiaram-se numa igreja evangélica em reformas. O local também virou abrigo de móveis.
A Polícia Civil informou hoje que a investigação sobre a chacina de sexta-feira, que deixou cinco mortos na favela, "está bem avançada".

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