Famílias devem acatar imposição do MST
Lucinéia Parra
De Maringá
O medo e a lei do silêncio imperam no Assentamento Luiz Carlos Prestes, localizado em Querência do Norte (113 quilômetros de Paranavaí). As 26 famílias que ameaçaram romper com a direção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) já admitem acatar todas as decisões do movimento com medo de perderem a posse da terra.
Ontem, conforme informações dos assentados, cerca de 150 integrantes do MST ocuparam a sede do assentamento para retirar duas famílias que estavam em uma área que os trabalhadores sem terra reivindicam. Os membros do MST também ocuparam ontem a casa onde vivia Celso Antônio Bakes, que foi retirado da propriedade na semana passada e levado para Capanema. Bakes era um dos líderes do grupo dissidente do MST e apesar de não ter a imissão de posse tinha conseguido o apoio das famílias assentadas para enfrentar a direção do MST.
A Folha esteve no assentamento ontem, mas foi impedida de entrar na propriedade. Integrantes do MST se revezavam na cancela instalada logo na entrada da propriedade para impedir a passagem da imprensa e da polícia. Quando a reportagem indagou sobre a presença dos integrantes do MST na área, os sem-terra disseram que eles estariam participando de um encontro agrícola na sede da antiga Fazenda São Pedro. No entanto, eles não permitiram a entrada da Folha até o local do encontro. Um dos integrantes ameaçou prender a equipe de reportagem da Folha na propriedade. Ele comparou a decisão da direção do MST com a da Polícia Militar quando realiza as desocupações dos sem-terra das áreas invadidas. Segundo ele, a imprensa nunca está presente nas desocupações realizadas pela PM, por isso não permitiria a entrada de jornalistas no assentamento. Em seguida, ele negou que os sem-terra estariam despejando as duas famílias dissidentes e se limitou a informar que a decisão de não permitir a entrada da reportagem no assentamento era da liderança do MST.
Na área onde estão as famílias assentadas o clima é de medo. Os agricultores falaram com a reportagem mas pediram para não ser identificados. É até ruim a gente falar com vocês porque se algum deles (integrantes do MST) ver, pode ser pior para nós, disse um agricultor assentado. Ele afirmou que das 46 famílias assentadas, 26 não concordavam em repassar os 3% de recursos liberados pelo governo para custeio das lavouras ao MST, mas que diante da pressão, todos voltaram atrás. Não dá para enfrentar eles porque senão eles vêm e tiram a gente daqui, explicou.
Nem mesmo a polícia consegue entrar na sede do assentamento. No posto da Polícia Militar, os policiais também evitam falar sobre o assunto. Um dos soldados entretanto, disse ontem à Folha, que os sem-terra teriam tentado virar uma viatura na tarde de terça-feira. Ele disse que a vida dos assentados virou um inferno depois que eles enfrentaram a direção do MST. Até ontem no início da tarde, nenhum agricultor do Assentamento Luiz Carlos Prestes havia registrado queixa na delegacia pela desocupação da área reivindicada pelo MST.Lideranças permanecem no assentamento; agricultores já admitem voltar atrás e repassar ao movimento 3% dos recursos obtidos para custeio
Marcos NegriniPRESSÃOCasa onde morava Celso Bakes, coordenador do assentamento, e que foi ocupada por lideranças do MST





