São Paulo, 27 (AE) - Desmaios, bate-bocas, 400 PMs para garantir a segurança e uma legião de moradores desamparados, com os móveis enfileirados na calçada, sem saber para onde ir. Cenas da reintegração de posse de dois edifícios, na manhã de hoje no centro de São Paulo.
Em cumprimento ao mandado judicial, 330 famílias abandonaram dois edifícios que ocupavam desde fevereiro, na Avenida Prestes Maia e rua Brigadeiro Tobias. Sob ordens de oficiais de Justiça, garantidos por soldados do Batalhão de Choque, desde 6 horas os moradores desmontaram móveis e carregaram pertences para os caminhões. Houve confusão. Mulheres desmaiaram, crianças perderam-se dos pais.
Sobrevivendo com salário mínimo, os moradores estavam sem rumo. "Se pelo menos deixassem a gente pagar o que pode pra morar numa casinha", lamentava o vigia Carmelito da Conceição, depois de descer 10 andares de escada com um armário nas costas e uma bolsa na mão. Baiano, ele veio para São Paulo há três anos "para tentar a sorte". Apesar de tudo, diz que melhorou de vida. "Se aqui a vida é dura, lá é pior", disse. "Agora eu sou trabalhador registrado."
Com o violão nas costas, puxando pelo braço a mulher e a filha de 3 anos, o cantor sertanejo Laércio Afonso da Silva, de 44 anos, apelava para a verve de compositor para definir a desolação: "Não é vergonha não poder morar/Se eu não posso ser proprietário/Ninguém é dono de nada/Essa é a realidade da vida." Em dois cômodos, sem cozinha e banheiro, moravam sete pessoas de sua família.
Na calçada, encostados nas parede, ficavam amontoados os pertences dos moradores: roupas, fogões, quadros, bonecas. Aos 73 anos, o alagoano Antenor Rodrigues Oliveira, tentava encontrar um lugar para o saco de estopa com suas roupas. Veio para São Paulo em 1946, foi PM, trabalhou na construção civil, na lavoura. "É triste demais", dizia. "Esperava melhorar de vida, mas nunca é como a gente quer." No local, um dos proprietários, áugusto Amorim, de 24 anos, disse que os prédios abrigarão um hotel. "É triste, mas não temos nada a ver com os problemas do País."

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