Famílias deixam morro
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2000
Por Valeria Rossi 
São Paulo, 29 (AE) - Com geladeiras, colchões e trouxas de roupas nas costas, moradores da Favela Vila São Roque desceram o morro para salvar o que sobrou das chuvas. O medo de novos deslizamentos fez muita gente deixar seus barracos, sem destino.
A dona de casa Maria de Lurdes da Silva, de 36 anos, está traumatizada. "Não tenho para onde ir, mas não vou esperar a terra encobrir meus filhos", dizia, enquanto descia o morro com sua trouxa de roupas na cabeça. Temendo outra chuva forte, Maria de Lurdes disse que levaria os filhos para debaixo de uma ponte. "Graças a Deus estamos vivos; meu barraco está em pé, mas não volto para esse lugar."
As pessoas que tiveram parentes mortos no deslizamento de terra continuam em estado de choque, como a faxineira Maria Lúcia Batista de Oliveira, de 39 anos, que perdeu a filha Catiuse de Oliveira Silva, de 17, e o neto Gabriel Oliveira, de 9 meses. "Saí de Santos para tentar a vida em São Paulo com a minha família e agora não me resta nada."
Catiuse foi encontrada nos escombros abraçada com o filho. "Nunca mais vou esquecer essa cena", disse Maria Lúcia. Ela não tem para onde ir e pretende recomeçar a vida na favela. "Vou construir o barraco no mesmo lugar e esperar que a próxima chuva me leve também."
O desempregado Jair de Souza Santos, de 27 anos, também estava desolado. Jair perdeu cinco familiares: os irmãos Jailton
de 21 anos; Mayala, de 18, e Islaine, de 23 anos; a cunhada Celene Santos de Oliveira, de 18, e o sobrinho Robert William, de 1 mês. "Quando vi o morro descer senti que minha família não tinha chance de escapar", contou. Ele e os irmãos vieram da Bahia há três anos. "A vida lá era muito difícil, mas maior sofrimento que esse não tem."
A mulher de Santos, Iracema de Jesus, de 23 anos, está com medo de continuar morando na favela. "O pior é que não temos para onde ir."
As famílias das outras vítimas haviam deixado a favela pela manhã. Elas foram para casas de parentes em outras regiões da cidade. Segundo um dos sobreviventes da tragédia, Célio José de Paiva, de 40 anos, elas não aguentaram ver a retirada dos corpos.Paiva pensou que fosse morrer. Ele havia chegado a sua casa por volta das 16 horas: "Estava tomando banho, quando o banheiro foi invadido pela terra." Paiva ficou com terra pela cintura e foi socorrido pelos vizinhos.


