Sorocaba, SP, 25 (AE) - Quinze anos depois de serem assentadas pelo programa de reforma agrária, as 55 famílias que formaram a área 2 da Fazenda Pirituba, em Itaberá, a 310 quilômetros de São Paulo, comemoram a autonomia. O assentamento não depende do Programa de Crédito Especial da Reforma Agrária (Procera), pois a maioria dos assentados custeia a própria lavoura, e atingiu níveis de produção acima da média regional. A região é uma das principais produtoras de feijão, trigo, milho e soja do Estado.
Apenas 17 famílias ainda não possuem tratores, mas alguns assentados têm dois, além de caminhões, máquinas e sistemas de irrigação. "Estamos em condições de dispensar a assistência do governo e de dar emprego para outros", disse Antonio Meneghel Primo, de 51 anos.
A área 2, a mais bem-sucedida entre os cinco assentamentos da Fazenda Pirituba, é também a única não-controlada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que detém o comando das cooperativas e associações de assentados das outras áreas. "Preferimos trabalhar de forma independente por não concordar com as diretrizes do MST", disse Aparecido Rodrigues dos Santos, de 47 anos. Os lotistas fazem parte do Movimento dos Assentados Individuais (MAI), dissidente do MST, que tem integrantes também nas outras áreas.
Segundo Santos, nos primeiros sete anos, os assentados foram vinculados a uma associação controlada pelo MST. "Chegou a um ponto que ficou impossível trabalhar da forma que eles queriam e resolvemos dissolver a associação; saímos sem nada e tivemos de recomeçar do zero." Segundo ele, tratores, equipamentos e até uma secadora de feijão, comprados com dinheiro do Procera, tiveram de ser vendidos para pagar as dívidas da associação.
Santos tem dois tratores, semeadeira para plantio direto
carreta, bomba pulverizadora e patrimônio que avalia em pelo menos R$ 50 mil. No lote de 7 alqueires, construiu uma casa e tem dez cabeças de gado. A terra é insuficiente e ele arrenda áreas de outros sitiantes da região para plantar: colhe 50 sacas de feijão por alqueire - a média regional é de 30 sacas - e 220 de milho - a média é de 160.
Primo também arrendou 20 alqueires para plantar, além dos 5 do lote dele. Só financiou 2. "Prefiro trabalhar com dinheiro próprio." Além de dois tratores e de uma batedeira de feijão, ele tem um caminhão, tudo avaliado pelo banco em R$ 68 mil. Dois filhos ajudam-no no lote. Ele participa de mutirões para ajudar outros assentados, principalmente no preparo da terra e na colheita. "Mesmo sendo independentes, todos se ajudam", disse. Outro assentado, Ramiro Guerra, de 37 anos, entrou na área há seis anos, no lugar de um lotista desistente - de 20% a 30% dos assentados desistem dos lotes, segundo o Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) -, depois de participar de um processo de seleção. "Vim com uma mão na frente e outra atrás." Ele tem 35 cabeças de gado para leite e engorda e investiu R$ 5 mil do próprio bolso para levar energia à área.
Aristides Pinheiro, de 42 anos, também optou pela criação de gado. Em 1998, plantou feijão, mas perdeu a lavoura. Sem seguro - era plantio com dinheiro próprio -, vendeu 18 cabeças para pagar a dívida. "Não gosto de ficar devendo", disse. Recuperou parte do gado, tira 60 litros de leite por dia e conta com a ajuda de dois filhos, de 11 e 14 anos. "Agora, estou montando uma granja."
O coordenador do MAI, Iolando Veiga, considera que a área 2 é modelo de reforma agrária. "Mas só está dando certo porque se tornou independente do MST." Para comprovar, citou o assentamento da área 1, onde tem um lote. "Dos 89 assentados, apenas 18 têm tratores e, desses, 14 são de lotistas independentes", disse. A área 1 é controlada por uma cooperativa do MST.
O coordenador regional do Departamento de Assuntos Fundiários do Itesp, Francisco Feitosa, tem outro ponto de vista. "Todas as áreas do assentamento estão dando certo, pois as famílias têm moradia, alimentação e escola." Nas cinco áreas
estão assentadas 352 famílias e, segundo Feitosa, em todas há algumas que conseguiram se destacar mais na produção.
"Mas acredito que todas, ou a imensa maioria, atingiram um patamar que lhes permite crescer." Os independentes decidiram dar uma demonstração de força, ontem (24), ao secretário da Justiça, Belisário dos Santos Júnior, que visitava a região para entregar títulos de posse a lotistas de um projeto anterior de colonização. Eles reuniram uma frota de mais de cem tratores e máquinas e desfilaram para a comitiva do secretário.

mockup