Washington, 17 (AE) - Dezenas de famílias norte-americanas que adotaram crianças brasileiras por intermédio da organização não-governamental Limiar manifestaram-se chocadas e indignadas, nos últimos dias, diante das decisões da Justiça de Santa Catarina, Paraná e São Paulo de suspender a entidade, depois que um jornal e o Programa do Ratinho a acusaram de vender órfãos brasileiros nos Estados Unidos.
"Isso é ridículo, é uma calúnia contra uma organização que se dedica apenas ao interesse de órfãos e é um insulto às famílias que abriram seus lares e seus corações para acolher crianças que não têm quem as adote no Brasil", disse Sharon Eash, que vive na região de Fresno, Califórnia. "O que está acontecendo é muito triste, mas é também uma enorme injustiça contra as pessoas da Limiar, que agem motivadas apenas pela bondade de seu coração, mas principalmente contra crianças que estão em orfanatos no Brasil, pois prejudica suas chances de serem recebidas por famílias que as querem." Sharon e seu marido, John, um funcionário municipal, adotaram Steven, de 10 anos, em São Paulo, em 1990, sem ajuda de organizações ou agências especializadas. No ano seguinte, adotaram Julienne, de 10 anos, e Thomas, de 9, no Recife, por intermédio da Limiar. A decisão da Justiça paulista de suspender a Limiar esta semana pode, agora, frustrar os planos do casal de concluir o processo de adoção de mais uma filha brasileira, uma jovem de 13 anos.
"A Limiar nunca nos pediu dinheiro e essa foi uma das razões pelas quais nós a escolhemos, pois já tínhamos uma experiência anterior", disse Sharon. "Eles nos deram todo o apoio desde o momento em que chegamos ao Brasil, nunca nos falaram em pagamento como condição para a adoção e em momento algum do processo, que é longo, sentimos que estaríamos participando de uma operação comercial", afirmou ela. "O que a Limiar nos pediu foi uma doação, o que é perfeitamente normal para uma organização sem fins lucrativos, e nós demos até mais do que eles pediram, e continuamos a fazer contribuições até hoje, porque queremos apoiar a causa da Limiar."
Surpresa - Nada menos de 24 famílias norte-americanas que adotaram crianças brasileiras manifestaram surpresa e preocupação com as ações contra a Limiar no Brasil na semana passada. "Antes de adotar os nossos filhos, procuramos nos informar e optamos pela Limiar porque eles não nos apresentaram nenhuma pré-condição", disse Andrea di Lorenzo, de Silver Spring, Maryland. "Ao contrário da Limiar, a maioria das agências de adoção usam serviços de advogados, que pedem US$ 10 mil, US$ 15 mil e até mais para começar o processo", explicou ela. Andrea e seu marido, John Bayerl, um editor de publicações técnicas, adotaram Lucas, de 9 anos, e Denise, de 12, num orfanato em Carapicuíba, no ano passado.
"O processo de adoção de uma criança brasileira é caro, pois envolve passagens de avião, pelo menos três semanas de hotel no Brasil, despesas com tradução de documentos e outras providências", disse Andrea, que tirou licença de seu cargo de analista política da Associação Nacional de Educação dos EUA para dedicar-se aos filhos adotivos. "Eu não compreendo a acusação contra a Limiar porque, no nosso caso e nos casos de outras famílias, nós pagamos essas despesas diretamente, sem intervenção da Limiar." A exemplo dos Eash, Andrea di Lorenzo e o marido fizeram a doação sugerida pela organização. "Mas em nenhum momento nos sentimos compelidos a dar o dinheiro e fizemos a contribuição porque queremos apoiar a Limiar."
Contribuição - Don e Jane Cartmell, de Arlington, Virgínia, são pais de dois meninos e duas meninas brasileiras, adotados entre 1992 e 1996. "Minha primeira reação, ao ouvir o que estão dizendo contra a Limiar no Brasil, foi de total incredulidade", afirmou Janey. "A nossa experiência com a Limiar foi e continua a ser muito positiva." Os Cartmell fizeram a doação pedida pela organização e dão, até hoje, uma contribuição mensal de US$ 125. "Ajudamos porque a Limiar mantém programas de ajuda às crianças que estão nos orfanatos", disse ela.
Em West Lafayette, Indiana, o engenheiro Tim J. LaClair também se mostrou surpreso com a controvérsia. Idêntica reação teve a brasileira-canadense Adriana Hamu, que vive em Ontário, Canadá, com seu marido, Charlie, um especialista em computadores
e os dois filhos adotivos, Marcelo, de 18 anos, e Birdie (ex-Márcia), de 15. A insinuação de que a Limiar e os pais adotivos de órfãos brasileiros nos EUA tenham algo em mente além do interesse e do bem-estar das crianças chocou especialmente Marily e Brad Agenbroad, que moram no Estado de Oregon. Eles encontraram um de seus quatro filhos adotivos, Elise, hoje com 4 anos, abandonada num orfanato em Campo Grande, com graves queimaduras nas duas pernas.Por Paulo Sotero ---------- Atenção, sr. editor: essa matéria segue como cortesia para os assinantes do Noticiário Geral (NG) ----------

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