Curitiba - Um ano depois do incêndio que matou 242 pessoas e deixou mais de 600 feridos, familiares e moradores da cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, reclamam da impunidade e cobram uma ação na Justiça. O processo criminal principal trata dos homicídios e são acusadas quatro pessoas: os sócios da boate, Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann; o vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, que acendeu o artefato pirotécnico; e o produtor musical, Luciano Augusto Bonilha Leão, que comprou os fogos. Todos foram soltos em maio do ano passado.
A tragédia resultou em outros dois processos na esfera criminal, um na Justiça Militar, envolvendo oito bombeiros e uma ação por improbidade administrativa contra quatro bombeiros. A casa noturna, localizada na Rua das Andradas, 1.925, tinha capacidade para 691 pessoas, mas a suspeita é que mais de 800 estavam no estabelecimento. Os principais fatores que contribuíram para a tragédia, de acordo com a polícia, foram o material empregado para isolamento acústico (espuma irregular), uso de sinalizador em ambiente fechado, saída única, indício de superlotação, falhas no extintor e exaustão de ar inadequada.
"Nós vivenciamos a impunidade todos os dias e isso é muito ruim. Dentro deste um ano nós esperávamos que a Justiça tomasse alguma decisão, mas infelizmente nada aconteceu. Ninguém foi realmente punido, os responsáveis estão soltos. Queremos que a punição seja exemplar", apontou Adherbal Ferreira, presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM).
Atualmente a Justiça está colhendo depoimentos dos sobreviventes da tragédia. O próximo passo será ouvir testemunhas. Os réus serão os últimos a prestar esclarecimentos. Quando esta fase for finalizada, o juiz que trabalha no caso, Ulysses Fonseca Louzada, vai decidir se o caso vai ou não a júri popular.
Ferreira perdeu a filha, a estudante de Psicologia Jennifer Ferreira, de 22 anos, no incêndio. Uma semana após a tragédia, ele teve a ideia de reunir familiares das vítimas e sobreviventes na tentativa de amenizar a dor da perda, mas também para cobrar a responsabilização dos envolvidos na tragédia. "Tentamos ajudar as famílias com auxílio social e psicológico. Além disso acompanhamos o andamento das investigações e de todo o processo, por isso cobramos atitudes efetivas de punição. A associação é muito atuante e se não fosse por ela estaríamos numa situação muito pior", explicou Ferreira.
Desde o início da última semana estão sendo realizadas homenagens às vítimas do incêndio na cidade.

Lei federal
Nos dias seguintes ao incêndio, a Câmara dos Deputados anunciou a criação de uma comissão externa para acompanhar os desdobramentos da tragédia e apresentar uma proposta legislativa sobre o tema. Entretanto, a mobilização inicial perdeu força. Concluído em junho de 2013, o projeto de lei aguarda há mais de sete meses para ser levado à votação em plenário. A ideia era apresentar uma legislação de prevenção a incêndios que reforçasse a fiscalização de casas noturnas, bares e similares.

Recuperação
Jéssica Duarte da Rosa, de 21 anos, mora em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, desde que se recuperou do incidente. Ela cursava o quinto período de Administração na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e, depois da tragédia, decidiu deixar a cidade.
Jéssica teve 45% do corpo queimado na tragédia, mas atualmente se recupera bem e inclusive já passou pela primeira cirurgia plástica em dezembro. Ela adiantou que não vai participar das homenagens às vítimas em Santa Maria, entretanto, afirmou que acompanha tudo o que acontece na cidade, das manifestações ao andamento dos processos. Segundo ela, ainda é muito difícil retornar para a cidade. "Tenho medo de chegar lá, sentir aquele clima pesado, as lembranças ainda são muito recentes. Não sei se iria suportar. Sempre converso com o pessoal da AVTSM e vejo que eles continuam lutando por Justiça. E é o que deve ser feito", disse.

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