Familiares de mortos pela PM fazem protesto em Londrina
Manifestantes cobram investigação dos casos, responsabilização e punição dos autores dos homicídios e câmeras para registrar ações policiais
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de novembro de 2022
Manifestantes cobram investigação dos casos, responsabilização e punição dos autores dos homicídios e câmeras para registrar ações policiais
Simoni Saris - Grupo Folha 


Entre 2017 e 2021, Londrina, Cambé e Ibiporã registraram a maior taxa de letalidade policial do Paraná. Dados do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), do Ministério Público do Paraná, mostram que, nas três cidades, forças de segurança formadas pela Polícia Militar, Polícia Civil e guardas municipais foram responsáveis por 230 mortes nos últimos cinco anos. O número corresponde a 13,4% dos 1.706 casos contabilizados em todo o Estado no período.
Na versão oficial, as mortes aconteceram em supostos confrontos com suspeitos e os disparos foram necessários para defender a integridade dos agentes de segurança. Por trás de cada número, no entanto, há uma família que ao mesmo tempo em que vive a dor da perda, se mobiliza para que os casos não sejam arquivados pelas autoridades competentes, relata falta de transparência nas investigações e narrativas marcadas por contradições.
Na manhã desta quarta-feira (2), data em que se comemora o Dia de Finados, familiares de pessoas mortas pela polícia se reuniram em uma manifestação em memória de seus entes queridos, mas também para reivindicar maior rigor na apuração dos fatos e quando comprovada a conduta irregular dos policiais, que os responsáveis sejam punidos. O ato, organizado pelo movimento “Justiça por Almas – Mães de Luto em Luta”, começou às 9 horas, com a concentração dos participantes no estacionamento do Zerão. Às 10 horas, eles seguiram a pé até o Cemitério São Pedro, na avenida Juscelino Kubitschek, onde permaneceram por mais de uma hora, do lado de fora, em um protesto silencioso.
Os manifestantes carregavam faixas, balões negros e distribuíram panfletos nos quais explicavam a motivação da mobilização, pediam por justiça e tentavam conquistar o apoio da sociedade.
Entre eles, estavam José Valentim Colly e Liliane Furlan Colly, pai e irmã de Angelo Gabriel Colly, morto em 20 de janeiro de 2022, aos 25 anos, pela polícia militar. Segundo os familiares, no dia da morte, policiais passaram diversas vezes em frente à casa onde Gabriel vivia, no jardim Leonor (zona oeste). Por volta das 23 horas, o rapaz saiu para ir dormir na casa da namorada e, no caminho, foi morto a tiros de fuzil. Os policiais alegaram confronto, mas Liliane e o pai contestam essa versão e afirmam que Gabriel não estava armado. “Eles mesmos julgam, eles matam, o julgamento é deles”, disse Liliane. “Os policiais fazem o que querem. Não respeitam a família de ninguém. Simplesmente chegam e matam e depois falam que é confronto”, afirmou José Valentim, que diz estar certo de que há um grupo de extermínio em Londrina. “E os delegados não fazem nada porque têm medo deles.”
O caso, disse a irmã de Gabriel, foi arquivado por falta de provas. Liliane e o pai buscaram ajuda na Corregedoria-Geral da Justiça, enviaram cartas ao órgão, mas o caso não avançou. “É muito revoltante. A gente sabe que não houve confronto, mas vai pedir ajuda para quem, onde? Dá uma sensação de impunidade, injustiça. Gera muita dor. Não é só a dor do luto. Minha mãe está com um monte de problema de saúde que veio da parte emocional. Meu pai e eu, também”, desabafou Liliane.
Há quase oito meses, Ana Carolina Mariz sofre a dor da perda do marido, Fábio Bratec, 32 anos, morto com dois tiros de fuzil na cabeça, atingido pelas costas, no meio da tarde, quando saiu de casa para comprar pão. Mariz acusa os policiais de execução e afirma que o marido foi morto por engano. Eles teriam confundido Fábio com o irmão dele, Sérgio, procurado pela polícia. O crime aconteceu no último dia 15 de março, na zona norte de Londrina.
“Meu marido chegou às 15h15 do serviço. Às 15h50, eu vi ele vivo pela última vez”, relembrou Mariz. Ela soube pela cunhada que havia ocorrido um homicídio no bairro e foi até o local. Antes de chegar até onde estava o corpo, reconheceu o tênis do marido. “Os policiais estavam rindo como se tivessem ganhado um troféu. Comecei a ligar para o meu marido. Ele não atendia. Mostrei a foto dele para o policial, perguntei se quem tinha morrido era o mesmo da foto. Ele disse que tinha sido um confronto com o Sérgio. Eu olhei para ele e falei que aquele não era o Sérgio, mas o irmão dele, Fábio. Os policiais pararam de rir na hora e ficaram constrangidos. Fizeram uma barreira humana, jogaram a viatura mais para perto do corpo”, contou. “Eles nem fizeram a abordagem. Se tivessem feito, teriam visto que aquele era o Fábio porque ele estava com os documentos e o crachá da firma.”
No processo, os policiais disseram que Fábio teria atirado contra eles, mas a família nega e diz que um exame residuográfico comprovou a inexistência de vestígios de pólvora nas mãos dele e não foram constatadas impressões digitais na arma que, segundo Mariz, foi plantada no local do crime como sendo de Fábio. “Meu marido nem tinha arma. Ele trabalhava de manhã para comer à noite.”
O caso, disse Mariz, está parado. “Eu só espero que quem atirou possa pagar. Tenho dois filhos (um de cinco e outro de sete anos) que perguntam pelo pai e hoje passam por psicólogo. Eu passo por psiquiatra, tomo remédios. Minha vida não é mais a mesma. Meus filhos veem uma viatura da polícia e se escondem. Morrem de medo. A gente não tem mais segurança. A pessoa que era para nos proteger, matou.”
O movimento “Justiça por Almas – Mães de Luto em Luta” reivindica que os casos de morte em que há envolvimento da PM sejam apurados por meio de uma força-tarefa e os responsáveis, punidos. Também pedem que os policiais usem câmeras nos uniformes e nas viaturas para registrar imagens das operações, além de serem submetidos a exames toxicológicos regulares.
Tudo isso, afirmam eles, poderia contribuir para reduzir a violência praticada pelas forças de segurança em Londrina. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2021, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2020 a cidade teve o 12º maior número de mortes em decorrência de intervenções policiais em todo o país. Foram 57 naquele ano.
Coordenador estadual do Movimento Nacional de Direitos Humanos, Carlos Henrique Santana, cobra uma atuação da Defensoria Pública nesses casos. “O custo da Justiça é muito alto. Essas famílias não têm condição. Não é justo que elas estejam sem a proteção da Defensoria Pública do Estado do Paraná. Quando a gente fala em força-tarefa, é o Ministério Público, a Defensoria, o Tribunal de Justiça, a Assembleia Legislativa e o governo do Estado. Essas famílias têm que ser ouvidas.”
Santana esclareceu que o Movimento Nacional de Direitos Humanos não tem problema com a Polícia Militar, mas afirma que a corporação não está “fazendo o trabalho como se deve”. “Estamos aqui para apaziguar isso. Terminar com esse tipo de atitude.”
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