Dois anos depois da chacina de janeiro de 2016, as famílias das vítimas ainda enfrentam as consequências daquela noite trágica. Todos os dias elas buscam a prisão dos responsáveis pela morte de seus filhos, mas isso ainda não aconteceu. Maria de Fátima Freitas Rodrigues, mãe de Adriana Rodrigues,34, assassinada há dois anos, se diz inconformada porque até hoje não houve punição dos assassinos. "A gente quer respostas, porque até agora elas não vieram. Depois que ela morreu os policiais e promotores mantiveram contato somente até três meses depois do assassinato. Depois parou tudo. Ninguém mais deu notícia, nem a promotoria, nem nada. Aquietou. Parou", reclamou. Ela explica que agora ela toma conta do filho da Adriana, que é especial. "A gente espera justiça. Prenderam todos e depois soltaram", declarou. Ela revelou que depois que a Adriana morreu, o governo interrompeu o pagamento da pensão destinada a seu filho especial. Ela ingressou na justiça para que o pagamento da pensão fosse retomado, mas isso só aconteceu um ano depois. Nesse período ela revelou que teve que se desdobrar para conseguir recursos para sustentá-lo.

João Maria Rodrigues, pai de Adriana, declarou que os criminosos estão todos impunes. "Se fosse filho de um marajá, de um tubarão, de um ricaço, a justiça já tinha visto isso, mas como é filho de pobre, ninguém faz nada. Eu me sinto indignado. Se fosse em outro País, já tinham tomado uma decisão, mas como aqui é o Brasil o cara deita e rola". Ele afirma que os assassinos andam soltos, bem tranquilos, e a Justiça está quieta. "É difícil ver um filho da gente ser assassinado e isso ficar impune. Eu gostaria que tivesse um promotor de peito para colocar esses caras na cadeia. Trazer de volta minha filha eles não podem trazer, mas enquanto não acharem os assassinos, nós não vamos nos aquietar", declarou Rodrigues.
Marco Antônio Modesto, pai de outra vítima da chacina, Matheus Henrique Cyrillo Modesto, 21, disse que tudo ainda está muito obscuro. "Foi provado pela investigação a ligação da morte do carroceiro na Warta (zona norte) com as mortes do jardim Bandeirantes (zona oeste) e no jardim Planalto (zona norte), onde meu filho foi morto com outras três pessoas. A gente quer entender o porquê, quem autorizou, quem deu a ordem para que isso acontecesse, para que esse milícia agisse?", questionou.

Ele destacou que a investigação caminhou, o delegado fez o pedido de prisão dos acusados e a promotoria também fez esse pedido. "Mas o juiz mandou soltar. Quem está acobertando tudo isso? Os familiares estão vendo isso como impedimento para o avanço da investigação. Nesses dois anos esse episódio desestruturou a família da gente".

Sequelas - Ele destacou que a família está perdendo a saúde por causa dessa tragédia. "Minha filha está muito doente, ela é quase da mesma idade que o Matheus e desenvolveu uma doença autoimune por conta da depressão", apontou. Por causa disso ela quase perdeu os dois rins. "Isso vai corroendo a gente por dentro", declarou. Ele ressaltou que vê a obstrução da justiça não por falta de esforço da promotoria ou da investigação, mas por grupos que tentam minar a prática da justiça. "O delegado manda prender e o juiz manda soltar. A falta de justiça é o que impera e a gente fica de mãos atadas para agir", declarou.

A mãe de Matheus, Adelaine Modesto, disse que não é só a saúde da filha que está doente. "Estamos todos doentes. Eu tenho problema de sono e insônia. Isso acarretou em problemas físicos, em dores no corpo. As sequelas psicológicas são muito grandes. Penso nisso todos os dias. Vivo aquela noite todos os dias. Meu menino não era bandido. Gostava de conversar, não era usuário de drogas. É uma coisa muito injusta saber quem são os suspeitos e eles continuarem soltos. O certo era ter mais justiça independentemente de quem forem os suspeitos", declarou.

A carga emocional desencadeada com a morte do filho foi violenta. "Nada é igual como antes. A gente tem o sentimento de sempre viver na beira do caos. A gente tem corrido atrás do promotor, mas as coisas andam muito devagar", declarou Adelaine.
Ela criticou o fato das perícias ainda não terem sido realizadas. "Elas tinham ido para Curitiba, mas até agora não foram realizadas, porque alegavam que havia muitas perícias a fazer, mais de duas mil perícias na fila. A prioridade que falaram que ia ter não aconteceu. Agora o promotor daqui conseguiu que as perícias voltassem de Curitiba para cá", declarou.

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