Curitiba - A nota da Secretaria de Estado da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos sobre a rebelião de quinta-feira na Penitenciária Estadual de Piraquara (PEP) 2, em que nega a superlotação da unidade e a falta de kit higiene para os presos, revoltou os familiares dos detentos, que procuraram a FOLHA para contar a situação de seus parentes na unidade. As famílias entregaram à reportagem cópia do comunicado recebido em junho com as regras para visitas e a autorização para a entrega de sacolas mensais com produtos de higiene, vestuário e alimentos aos presos. A autorização foi regulamentada no mês passado, mas o que era para ser um incremento ao material disponibilizado aos presos, acabou virando a solução.
"Temos que levar a sacola todo mês porque, se não levamos, faltam itens básicos, como sabonete e papel higiênico. A comida, ele diz que é horrível, azeda, não consegue comer, então, como podemos levar macarrão, pão fatiado, bolacha e chocolate, é disso que ele se alimenta", conta a mãe de um preso. "Gastamos quase de R$ 200 com a sacola. Muitas famílias não têm condições de comprar e há presos que não têm familiares aqui. Assim, acabamos levando o máximo permitido, oito sabonetes, por exemplo, para que sejam compartilhados lá", disse a irmã de outro.
No comunicado com as regras de visita e a lista de produtos permitidos nas sacolas enviadas mensalmente aos detentos da PEP 2, constam, além dos itens já citados, leite em pó, margarina, xampu, creme dental, sabão, roupas e cobertor, entre outros. Chama a atenção as quantidades permitidas, como os oito sabonetes ou oito rolos de papel higiênico. "Se tem lá à disposição deles e isso é só um complemento, não faz sentido pedir oito. Minha família inteira não usa oito sabonetes em um mês em casa", disse outra mãe.
O presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários do Paraná, Antony Johnson disse que a portaria, que era uma autorização para dar às famílias a opção de melhorar um pouco a condição dos presos, transformou-se numa obrigação velada. "Os presos se alimentam muito mal. Há um contrato milionário para as refeições deles, mas a qualidade é muito ruim. Também faltam itens básicos de higiene. As famílias acabam sendo obrigadas a levar esses itens pedidos. Era uma autorização, mas virou uma obrigação", disse.
Johnson revela ter informações de que já está acontecendo, dentro da PEP 2, o comércio desses produtos, bem como, o financiamento do crime organizado a famílias que não têm condições de comprar os itens, "o poder paralelo está pagando essa sacola para as famílias dos presos que não têm condições, fazendo com que o preso fique devendo favor aos líderes das quadrilhas e envolvendo as famílias, fora do presídio, na atividade".
Por meio da assessoria de imprensa, a Seju informou que o kit básico de higiene é entregue quinzenalmente a todos os presos, com sabonete, aparelho de barba, papel higiênico e pasta de dente, outros itens são entregues com menor frequência, mas que não há falta de nenhum dos materiais. A secretaria admite, no entanto, que devido às dificuldades financeiras do governo do Estado, que atrasou o pagamento a alguns fornecedores e que "pode ter ocorrido alguma falha circunstancial, num período curto". Ainda segundo a Seju, a portaria n° 232 serve para as famílias que quiserem complementar o atendimento básico oferecido pelo Depen.
A assessoria informou, também, que a possibilidade de mau uso da autorização, como o financiamento por quadrilhas ou a criação de um mercado paralelo, foi estudada pelo Conselho Penitenciário antes da edição da portaria, mas foi concluído que não se poderia prejudicar presos e familiares com um prejulgamento.

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