São Paulo, 10 (AE) - O corpo do pintor de paredes Joaquim Gilberto da Silva, de 61 anos, jazia no caixão, na sala A do velório do Cemitério Vila Nova Cachoeirinha. Eram 2 horas. A professora Sheila de Andrade Sabino Leonardo debruçou-se sobre ele para colocar uma coroa de margaridas brancas com a inscrição "Saudade das suas irmãs". Nesse momento, garante, Silva abriu os olhos e apertou a mão dela levemente.
Assustada, Sheila, que é sobrinha do pintor, chamou Iolanda Aparecido Felizardo, de 68 anos, irmã dele. Ela fechou os olhos de Silva. "Mas ele abriu e fechou os olhos de novo, sozinho", conta. "Depois abriu os olhos e a boca." Resolveram verificar a temperatura do falecido. "Ele ainda estava morno, o que não era possível para uma pessoa morta desde as 4 da tarde", contou Alessandra Martins Mendes, de 21 anos, mulher de um dos sete filhos de Silva.
Então começou um corre-corre inédito no Cemitério Vila Nova Cachoeirinha. Nervosos, os parentes queriam providências. "O que a gente podia fazer?", disse a encarregada Maria do Socorro dos Santos, que trabalha há 18 anos no cemitério e nunca viu caso igual. "Esse morto me deu dor de cabeça demais: foi um tal de entra-e-sai da sala, de lacra e deslacra que Deus me livre!"
O pintor tinha sido internado na madrugada de ontem (09) no Hospital do Mandaqui. Com um câncer no estômago, ele estava fraco e em crise. Foi para a Unidade de Terapia Intensiva, melhorou, chegou a ir para um quarto. Quando irmãs e filhos chegaram para a visita, à tarde, souberam que havia morrido.
"Morreu como? Não tinha melhorado?", quiseram saber Alessandra, Iolanda, Vera Lúcia Felizardo, outra irmã, Carla Ercília da Silva, filha. O atestado de óbito, assinado pelo médico Osmar Teixeira Hellwig dava como causa da morte insuficiência respiratória, carcinomatose e carcinoma de estômago. O corpo começou a ser velado às 20h30. Por volta das 2 horas, os parentes começaram a observar as "anormalidades" como piscar de olhos, movimentos e sinais de respiração.
Voltaram ao Hospital do Mandaqui. "Uma médica que estava de plantão disse que era impossível ocorrer aquilo, recusou-se a ver o corpo e ainda riu da nossa cara achando que a gente inventava coisas", contou Alessandra. Sheila argumentou que essas coisas só acontecem com pobre. "Se fosse rico, vocês botavam num aparelho e tentavam tudo."
Sheila, Iolanda, Vera e Carla foram queixar-se na delegacia. "O delegado viu que não era brincadeira", disse Iolanda. "Todo mundo viu meu irmão mexer as bolas dos olhos."
O delegado José Carlos Francoi pediu a remoção do corpo para o Hospital-Geral Nova Cachoeirinha. O neurologista Luiz Carlos Quoda examinou Silva, confirmou que estava morto. Inconformados, os parentes suspeitam que o pintor tenha saido vivo do hospital e morrido durante o velório.
O delegado pediu exame necroscópico para determinar a causa e o horário provável da morte. Abriu inquérito. Intimou o médico e as testemunhas, que devem ser ouvidos na próxima semana. Ontem, os parentes de Silva passaram o dia à espera da liberação do corpo pelo Instituto-Médico Legal.
Depois de toda a agonia, voltaram ao cemitério para mais uma noite de velório. O enterro vai ser às 8 horas de amanhã (11).
Numerosa, a família de mineiros de Uberaba, há muitos anos residente na Casa Verde Alta, lotou o cemitério. Atônitos, alguns souberam do caso pela televisão. "Deram meu irmão como morto, mas ele estava vivo", lamentava José Alaor, de 57 anos. "Até apertou a mão de Iolanda."
Pintor também, franzino e ativo, como o irmão que morreu
Alaor não se conformava. "Depois que mataram o japonês afogado na piscina e queimaram o índio, tudo pode acontecer neste mundo!" Ele não tem dúvida de que deram o atestado de óbito a um homem vivo. "Se fosse rico, marajá, tinham colocado no balão de oxigênio e ele sarava."
Segundo ele, sua cunhada morreu na maca, num corredor do Hospital do Mandaqui. "Faltou energia e quando a luz voltou, foram ver, ela estava morta." Para Márcia Pereira da Silva, 34 anos, mãe de nove e à espera do décimo filho, o sogro teve uma "vertigem". "Era uma coisa passageira mas não tiveram paciência, foram logo liberando."
Ontem à tarde, ostentando sua barriga de seis meses e acompanhada de vários netos de Silva (ao todo ele tinha cinco irmãos, sete filhos e 18 netos) ela comentava o quanto o sogro era durão, mas querido. "Dava bronca, mas todo mundo gostava dele."
O neurocirurgião Luís Augusto Rogano, do Hospital das Clínicas, suspeita que deve ter havido uma contratura muscular. "Não é comum, mas pode ocorrer em mortos." Há substâncias químicas que provocam rigidez no corpo e aos poucos vão se dissipando. E há corpos que se mantêm quentes por mais tempo que o normal.

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