Família de sem-terra é degolada
Paulo Pegoraro
De Cascavel
Quatro pessoas da mesma família, entre elas duas crianças, foram mortas no final da tarde de anteontem em um acampamento de sem-terra no município de Rio Bonito do Iguaçu (a 180 quilômetros de Cascavel, sudoeste do Estado). Todos receberam tiros de arma de cano longo, calibre 12, e tiveram suas gargantas cortadas por faca. As vítimas são Aldenir Almeida de Souza (34 anos), sua mulher Noeni Marcanssoni (24), e os filhos Roni Anderson (3) e Paulo Antonio (5). Eles moravam em um barraco distante 150 metros do vizinho mais próximo. Segundo a polícia, o vizinho não estava em sua casa no momento do crime.
Informada da chacina às 23 horas de anteontem, a Polícia de Rio Bonito não acredita na hipótese do crime estar ligado à questão fundiária, embora a arma calibre 12 seja geralmente por policiais ou pistoleiros. Um policial informou à Folha que Aldenir Almeida de Souza, conhecido como Goiano, tinha desentendimentos com outros sem-terra.
Conforme relatou o escrivão Ilton Lino de Oliveira, Goiano recebeu três tiros no rosto, que ficou totalmente desfigurado, e outro na perna esquerda. A mulher dele foi atingida por um tiro nas costas e outro no braço. O mesmo projétil acertou, na sequência, a cabeça de Roni Anderson. O menino Paulo Antonio foi alvejado no peito. Depois, todos foram degolados. Isso revela a monstruosidade total de quem cometeu os crimes, comentou o escrivão. Segundo ele, possivelmente seja apenas um autor, e conhecido da família, o que explicaria a morte das crianças: Ele não queria ser identificado, acredita.
O vizinho mais próximo da casa de Oliveira, Deoclides de Lima, foi autuado em flagrante por porte de arma de fogo, na Delegacia de Rio Bonito do Iguaçu, no final da tarde de anteontem, momento em que teria ocorrido o crime. Outros vizinhos, mais distantes, disseram ter ouvido pelo menos sete tiros em sequência muito rápida o que pode indicar arma de repetição, reforçando a hipótese de criminoso ser profissional.
Há policiamento constante na área e nunca foram encontradas armas de grosso calibre entre os sem-terra. O casal integrava um grupo de 93 famílias que formam a Associação dos Produtores da Reforma Agrária (Apra), uma dissidência local do Movimento dos Sem-Terra (MST). A Apra foi criada logo depois da ocupação da área, que pertencia à empresa agroflorestal e industrial Araupel, de Quedas do Iguaçu.
Os corpos das vítimas foram necropsiados em Guarapuava. O de Goiano foi transladado para o Estado de Tocantins, de onde era oriundo, e os demais sepultados em Rio Bonito do Iguaçu.Casal e duas crianças foram encontradas mortas em acampamento
Fotos Jacir WalterCRIMEOs sem-terra foram mortos por arma de cano longo e depois degolados; abaixo, fachada da casa e sepultamento dos corposCasal integrava grupo de famílias dissidentes do MST





