Paris, 19 (AE) - O anúncio feito pelo principal dirigente do Partido da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, de que Charles de Gaulle, neto do general, faria parte de sua lista de candidatos às eleições européias de junho não chocou apenas a opinião pública democrática francesa, mas indignou toda a família do herói da 2ª Guerra.
Jamais o nome do libertador de Paris poderia ter sido associado a grupos neonazistas, racistas e extremistas. Netos, bisnetos, sobrinhos netos e sobrinhas bisnetas do general De Gaulle, ao todo 57 descendentes diretos, estão protestando contra essa presença esdrúxula de um de Gaulle na lista de candidatos da extrema direita.
"Não !" Esse é o título de uma pequena nota subscrita pelos parentes de de Gaulle e publicada pelo jornal Le Monde na sua edição de hoje para renegar esse tio que ousou ultrapassar os limites de uma direita católica tradicional, próxima a Phillipe de Villiers e mesmo dos integristas, assumindo publicamente sua condição de candidato do partido de Le Pen.
"Seu nome não lhe pertence", afirmam os signatários do protesto, sustentando que o neto do general não tem o direito de utilizá-lo para defender idéias e homens que há meio século são inimigos de tudo o que incarnava o verdadeiro Charles de Gaulle.
Os descendentes do general não se conformam com essa candidatura defininida como "petainista, revisionista, racista e anti-semita". Eles prometem denunciá-la em todas as frentes, pois "está inserida no partido extremista que combateu violentamente de Gaulle, a Resistência e a integridade de nossa pátria".
Apesar disso, Le Pen não parece ter sido afetado pelo solene "não" da família de Gaulle, envolvida pela indignação, a vergonha e a revolta de ver seu nome associado a um grupo político que sempre combateu a defesa de princípios de liberdade. Na quarta-feira, sem dar ouvidos aos fortes protestos, acompanhado do Charles de Gaulle atual, segundo de sua lista de candidatos, Le Pen esteve em Séte, no sul da França, terra mediterrânea onde estão sepultados outros dois ídolos do país, os poetas Paul Valery e Georges Brassens.
Le Pen aproveitou para visitar os túmulos dos dois ilustres franceses, homenageando-os com coroas de flores - uma tentativa de recuperação política sobre esses dois homens que jamais tiveram qualquer afinidade política com o autor da frase, "o Holocausto foi apenas um detalhe da história".
Se em alguns países os mortos também votam, na França, Le Pen acredita que eles possam pensar. Mesmo se isso fosse possível, jamais textos elaborados por Valery e por Brassens poderiam favorecê-lo. No caso de Brassens, por exemplo, políticamente ele sempre esteve mais próximo dos velhos anarquistas franceses...

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