Família de aposentado processará Shering
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terça-feira, 07 de julho de 1998
Agência Estado 
A família do aposentado Ciro Amâncio dos Santos, de 78 anos, enterrado ontem pela manhã no Cemitério da Saudade, zona leste de Belo Horizonte, anunciou que vai processar o Laboratório Schering do Brasil e, possivelmente, o Ministério da Saúde por sua morte. Santos sofria de câncer de próstata e, por cinco meses, teria tomado comprimidos falsificados do medicamento Androcur, fabricado pelo Schering - o mesmo do anticoncepcional Microvlar.
Milhares de frascos do lote 351 do remédio - o mesmo ao qual pertenciam os comprimidos usados pelo aposentado -, foram apreendidos em todo o País, há alguns meses, a partir de denúncias de farmacêuticos. Decidimos entrar na Justiça quando percebemos que ele vinha tomando os medicamentos falsos e que cada vez mais seu estado de saúde piorava, disse a nora de Santos, Maria de Fátima Amâncio.
Ela contou que o aposentado adquiria o remédio gratuitamente, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), no Hospital Felício Rocho, região central da capital mineira. Santos também tinha o costume de guardar os vidros, mesmo depois de vazios. Depois que vimos as reportagens sobre o lote 351 nos jornais, constatamos que os vidros que ele vinha usando por cinco meses, com três comprimidos por dia, tinham esse número, disse Maria de Fátima.
Ele passou imediatamente a tomar o Androcur verdadeiro, mas, infelizmente, já era tarde, lamentou. Os médicos que cuidavam de Santos informaram que, segundo análises laboratoriais - feitas por autoridades sanitárias na época da apreensão do medicamento - o Androcur falsificado era inócuo. Como não possuía o princípio ativo, no entanto, o remédio pode ter contribuído para a progressão do câncer e, consequentemente, para a morte do aposentado.
De acordo com a Secretaria de Saúde de Minas, Santos pode ter sido a segunda vítima do Androcur falso no Estado. Em maio, o ex-prefeito de Timóteo, região Nordeste do Estado, Antônio Dias Martins, morreu, aos 62 anos, também vítima de câncer de próstata. Parentes do ex-prefeito garantiram que, nos últimos quatro meses de vida, ele consumiu frascos do lote 351 do remédio. Ao contrário de Santos, que recebia o Androcur de graça, Martins comprava o medicamento diretamente de uma distribuidora.
O Centro de Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo está verificando a suspeita de que haja Novalgina falsa no mercado. Segundo o laboratório Hoechst Marion Roussel, responsável pelo medicamento, há oito suspeitas semelhantes sendo investigadas também pela Vigilância Sanitária de Minas Gerais.
De acordo com o presidente da Hoechst, Nelson Libbos, a Novalgina falsa apresenta a inscrição princípio ativo em seu frasco. Já a inscrição substância ativa, diz Libbos, indica o remédio verdadeiro.
O diretor do Instituto Noel Nutels, Oscar Berro, afirmou ontem que a falsificação de medicamentos é facilitada pelos próprios laboratórios, que mudam os rótulos dos seus produtos ou os excipientes dos remédios - cor ou forma de cápsulas - sem comunicar oficialmente ao Ministério da Saúde, como manda a lei. Segundo ele, o instituto já contabilizou dez empresas que mudaram pelo menos três ou quatros vezes os rótulos de seus medicamentos.
Vamos notificar essas empresas para que assinem um termo de compromisso de registrar no Ministério da Saúde qualquer mudança, seja de embalagem ou de excipiente, sob pena de serem multadas, disse. Para Berro, essas modificações ocorrem por simples guerra de mercado.Agência Estado(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)SEM CHANCESReprodução de foto de Ciro Amâncio (dir.): cinco meses tomando medicamento falsificado; ao descobrir fraude, era tardeCiro Amâncio sofria de câncer, tomou Androcur falsificado e não resistiu


