A família de Cyro Amâncio dos Santos, morto na semana passada depois de usar por cinco meses o medicamento Androcur adulterado, deve entrar até o final desta semana com uma ação na Justiça de Minas Gerais, em Belo Horizonte. O advogado da família, Flávio de Almeida Lima, afirmou estar definindo contra quem vai entrar na Justiça. ‘‘A cadeia é muito extensa’’, disse o delegado.
Nessa cadeia estariam, segundo ele, o Hospital Felício Rocho, de Belo Horizonte, ligado ao Sistema Único de Saúde (SUS), que forneceu o medicamento. Além do hospital, o advogado da família Santos considera que fazem parte da cadeia distribuidor, fornecedores e falsificador. Lima não poupa o governo. ‘‘O governo poderia ser responsabilizado por omissão, não fiscalizar onde deveria é negligência’’, disse o advogado, acrescentado que o valor de uma possível indenização será fixado pela Justiça.
Ex-chefe de escritório da Central do Brasil, com uma aposentadoria mensal de cerca de R$ 1 mil, Cyro Santos descobriu que tinha câncer na próstata há oito anos. Todos os meses, tomava quatro frascos de Androcur fornecidos pelo Felício Rocho. O medicamento fez com que os mamilos do aposentado inchassem a ponto de os netos dizerem que ele estava ‘‘com os peitos parecidos com os da avó’’.
‘‘Ele tinha vergonha, não queria ficar sem camisa, mas o médico disse para ele: Você quer o seio ou quer morrer’’, conta a viúva Terezinha que, dois dias antes da morte de Cyro, completou 50 anos de casada com o aposentado. Coincidentemente no período em que tomou Androcur do lote adulterado, os mamilos de Cyro regrediram de tamanho.
‘‘Achamos que o corpo tinha se acostumado ao hormônio’’, lembra a filha Edna. A constatação de que o aposentado estava tomando um medicamento falso veio depois que a família assistiu, há cerca de três meses, a uma reportagem na TV informando sobre a falsificação do remédio.
A mania cultivada por Cyro Santos de ‘‘guardar as coisas’’ permitiu que a família constatasse que o remédio tomado pelo aposentado durante cinco meses tratava-se do Androcur adulterado. ‘‘Quando fomos verificar, tinha uns 20 frascos do lote 351 (com o medicamento adulterado) na gaveta dele’’, diz a filha Edna.
Após a constatação do problema, a família procurou o hospital Felício Rocho. Cyro passou a tomar o Androcur verdadeiro, ‘‘mas o organismo não respondia mais ao tratamento’’, conta a filha. ‘‘Meu pai não queria que a gente entrasse na Justiça porque tinha medo que o hospital não fornecesse mais o remédio’’, informa Edna. ‘‘Se o problema tivesse acontecido durante apenas um mês poderia passar despercebido, mas tenho prova de que foram pelo menos cinco meses’’, completa a filha do aposentado.
A viúva de Cyro diz que ‘‘ninguém dava 77 anos para ele’’. Segundo Terezinha, durante o tratamento com o Androcur verdadeiro, ‘‘ele fazia de tudo, o médico falava que ele não ia morrer da doença’’. (Leia mais sobre remédios falsificados na Folha Cidades)

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