Agência o Globo
De Brasília
O governo vai reconhecer que o atentado à OAB no Rio, em 27 de agosto de 1980, é responsabilidade do Estado. O secretário nacional dos Direitos Humanos, José Gregori, envia segunda-feira ao Congresso o projeto que autoriza o Executivo a indenizar os herdeiros da vítima da carta-bomba, Lydia Monteiro da Silva. A um ano da prescrição do crime, o ministro Sepúlveda Pertence, do Supremo Tribunal Federal, e o presidente da OAB, Reginaldo de Castro, pedem a reabertura do caso.
‘O Governo finalmente vai reconhecer o que passamos, mas acho que só indenizar não basta. Quero a apuração dos fatos. Sem isso, continua no ar a sensação de impunidade’’, disse o advogado Luiz Fellipe, filho da dona Lydia. Para ele, a reabertura do caso Riocentro e entrevistas em que os generais Newton Cruz e Octávio Medeiros (chefe do SNI) e o coronel José Zamith citam o envolvimento de militares em atentados em 80 são justificativas suficientes.
O projeto, que segue o modelo da lei que indenizou os parentes dos desaparecidos políticos, beneficiará o ex-soldado Mário Coso Filho, vítima de um atentado de esquerda a um quartel do Exército em São Paulo, e Lovegílio Filho, que perdeu uma perna num atentado semelhante ao Consulado americano em São Paulo.
‘‘Queremos justiça. São casos não alcançados pela lei que indenizou os parentes dos desaparecidos e que merecem reparação’’, disse Gregori. O caso da OAB jamais foi esclarecido. O único acusado, Ronald Watters, foi solto oito meses depois de preso por falta de provas. Sepúlveda e Reginaldo acreditam que o novo inquérito do Riocentro, aberto há um mês, poderá se deter também no caso da OAB. Eles estão convencidos de que os atentados foram cometidos pelo mesmo grupo.
Indícios apontam para essa hipótese. O mais importante é a confirmação de que o sargento Guilherme do Rosário, morto na explosão do Puma no Riocentro, participava regularmente de reuniões que um grupo de extrema-direita fazia na casa do marceneiro Hilário José Corrales, no Rio. Watters disse que viu Rosário na casa.
Das reuniões participavam militares e civis que conspiravam contra a abertura do regime militar. O livro ‘‘Direita Explosiva no Brasil’’, de Luiz Alberto Fortunato, José Argolo e Kátia Ribeiro, sustenta que as bombas que explodiram bancas de jornais e mataram o sargento e dona Lyda foram feitas na casa.
Para Reginaldo, a apuração do Riocentro acabará transbordando para o atentado à OAB e outras explosões daqueles dias, como o atentado à Câmara Municipal do Rio, no mesmo 27 de agosto de 1980.
O coronel José Zamith, que era da 2ª Seção do Exército (Informações), fez uma apuração paralela do atentado à OAB. ‘‘Na tarde de 27 de agosto, o general Waldyr Muniz (então chefe do SNI no Rio) me chamou para uma conversa. Enquanto esperava, um oficial me disse que uma bomba havia explodido na OAB. Logo em seguida, o oficial voltou e informou que outra bomba explodira na Câmara.’’
Muniz, segundo Zamith, o convocara para discutir uma ação contra o cardeal-arcebispo do Rio, dom Eugenio Sales. ‘‘Esse cardeal vai acabar no mesmo caminho de dom Adriano’’, disse Muniz, segundo Zamith. Tudo o que ouviu foi transmitido ao comandante da 2ª Seção, coronel Heitor Mendonça. Dois meses depois, Zamith perguntou ao delegado Melo Porto, que conduzia o inquérito, por que Watters fora preso. ‘‘Foi o general Medeiros quem mandou’’, teria respondido o delegado, de acordo com o coronel.A um ano da prescrição do crime, projeto de lei autoriza pagamento a parentes de funcionária morta em explosão na sede da OAB
Arquivo FolhaIndíciosJosé Gregori, secretário nacional de Direitos Humanos: ‘‘Queremos justiça. Esse caso merece reparação’’

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