Família compara Lamia a mártir
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quarta-feira, 12 de fevereiro de 1997
Agência Folha 
SÃO PAULO - Os familiares da brasileira Lamia Maruf Hassan, 32, libertada anteontem pelo governo israelense, vão compará-la a Tiradentes perante a opinião pública brasileira. Não queremos que ela seja tratada como uma terrorista, disse Naim Maruf Hassan, irmão de Lamia. A brasileira foi condenada à prisão perpétua após se envolver, em 1984, no sequestro e assassinato de um soldado judeu. As negociações de paz entre israelenses e palestinos acabaram por beneficiá-la. Lamia Hassan, que sempre alegou inocência quanto à morte do soldado, partiu ontem à noite de Londres e chega hoje cedo a São Paulo.
O que a gente vai transmitir para o povo brasileiro é que a Lamia estava num território ocupado militar e injustamente por tropas de Israel,
afirmou Naim Hassan. Vamos usar Tiradentes como parâmetro. Para os portugueses, ele era um terrorista, assim como a Lamia é para os israelenses. Hassan se referia a Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que participou, no final do século 18, de um movimento pela independência do Brasil conhecido como Inconfidência Mineira. Foi preso em 1789, condenado à morte e enforcado em 1792.
O marido dela (Tawfic Ibrahim Mohammed, preso em Israel, também acusado de matar o soldado) é um lutador pela paz. Ele e um companheiro não mataram o soldado por razões pessoais. Eles eliminaram uma farda, um símbolo da ocupação, acrescentou.
Não há nada de terrorista. É uma pessoa que lutou pela sua terra. Lamia sempre fala que, se houvesse uma confusão entre o Brasil e outro país, morreria pelo Brasil também, afirmou o pai de Lamia, Maruf Hassan Ibrahim. A própria brasileira afirmou, após sua libertação, que gostaria de trabalhar pela paz em São Paulo, no Brasil, com palestinos e judeus progressistas.
A politização de sua chegada foi reforçada ontem por comunicado do Comitê Brasileiro pela Libertação da Lamia, que convidava amigos e admiradores dela a recebê-la hoje com bandeiras do Brasil. Na casa dos pais de Lamia, no entanto, o tom político dará lugar a uma festa familiar. Ontem, a mãe da brasileira, Fátima Abd Massud, preparava pratos árabes e uma feijoada para a recepção.
A feijoada apareceu num sonho dela. Ela contou que tinha sonhado que estava comendo feijoada em casa, disse Naim Hassan. Lamia tem sete irmãos, cinco deles morando em São Paulo. A casa dos pais, num bairro de classe média na região sul da cidade, deve ficar lotada de parentes e amigos.
Pode passar uma escola de samba aqui dentro que não vou me importar, disse Nassif Hassan, 23, o caçula dos homens. Desde terça-feira, a residência está movimentada. Segundo Nassif, um dos momentos de maior emoção aconteceu por volta das 22h30 quando Lamia telefonou, do aeroporto de Londres. A brasileira conversou com os pais, irmãos e com a filha, Patrícia, 11.


