Se depender da continuidade na política, ninguém segura o clã dos Belinati. O prefeito de Londrina Antonio Belinati (sem partido) quer ser governador em 2002; a vice-governadora Emília Belinati (PTB) planeja conseguir daqui a quatro anos a vaga do Senado que ela pleiteava em 1998, mas acabou não levando em virtude do ‘‘acordo branco’’ entre o governador Jaime Lerner (PFL) e o senador eleito Álvaro Dias (PSDB). O recém-eleito deputado estadual Antonio Carlos Belinati (PSB), filho mais novo do casal, espera, um dia, ser prefeito de Londrina.
‘‘Minha intuição diz que ele ainda vai ser prefeito e deve chegar a outros cargos que o pai não conseguiu atingir’’, prevê um Belinati coruja, que também tem intuição quando o assunto é seu futuro político. Evangélico, o prefeito se rende ao apelo da ‘‘profecia’’. ‘‘Sou um profeta leigo e tenho a impressão que um dos quatro vai ser governador em 2002. Eu, o Rafael Greca, o Cássio Taniguchi ou o Álvaro Dias.’’ Para Emília, ele tem um desejo: ‘‘Vá para o Senado e você me libera para o governo.’’
Dona Emília admite a vontade de dar vôos mais altos em sua carreira política, que começou por influência do marido e dos amigos em 1990, quando foi eleita deputada estadual. ‘‘Tenho vontade sim de disputar o Senado. Nestas eleições a gente criou uma expectativa na população’’, reconhece.
Antonio Belinati, 54 anos, teve sua primeira experiência política como vereador, em 1968. Foi deputado estadual quatro vezes, uma vez deputado federal e é prefeito de Londrina pelo terceiro mandato. Emília Belinati, 53 anos, começou a carreira política em 1990 como deputada estadual. Em 1994, disputou como vice do então candidato ao governo Jaime Lerner e foi reeleita para o mesmo cargo nos próximos quatro anos.
O filho caçula do casal, Antonio Carlos, 23 anos, fez sua estréia na política nesta eleição. Foi o segundo mais votado para a Assembléia Legislativa, com 87.437 votos. Assume o mandato em janeiro e terá de adiar a conclusão do curso de Engenharia Civil na Universidade Estadual de Londrina. Como experiência anterior, o rapaz tinha passado pela prefeitura em 97 - nomeado para a diretoria financeira da Comurb (Companhia Municipal de Urbanização).
Mário Cesar‘‘Eu tenho sim
vontade de
ser candidata
ao Senado’’Na sexta-feira de manhã, os três receberam a Folha no apartamento da família, na área central de Londrina. A conversa durou mais de três horas. A seguir, os principais trechos da entrevista:
Folha - Como a senhora conheceu o prefeito?
Emília - Como eu conheci o prefeito... Eu trabalhava no consultório do Dr. Benedito Aldo da Rocha Campos, que era um grande neurologista aqui de Londrina. E o Belinati foi no consultório do Dr. Campos levar o pai dele que estava com nevralgia no trigêmeo. Eu conhecia o Belinati da televisão. Começamos a bater um papo e depois de algum tempo começamos a namorar...
Antonio Belinati - Enquanto o pai estava gritando de dor, nós estávamos por aqui...(sinais com as mãos, risos)...
Emília - ...Acho que dois anos depois, dois anos e pouco, a gente se casou. Em 68, ele foi candidato a vereador. Eu estava grávida da Simone. A Simone nasceu em novembro. Minha filha mais velha. Ele ficou sabendo do nascimento algumas horas depois, porque estava fazendo campanha e nem sabia que eu tinha ido para o hospital. Mas a vida era assim mesmo. Eu acompanhava bastante o trabalho do Belinati, ajudava, participava de campanha.
Folha - Quando a senhora resolveu entrar para a política?
Mário Cesar‘‘Temos um mandato
aí que pode ser
produtivo pela
votação recebida’’Emília - Em 1990. Uma surpresa. Quando eu cheguei aqui (em casa) havia umas 50 pessoas que vieram me convencer a ser candidata a deputada estadual.
Antonio Belinati - Eu tinha pedido à Emília um voto de confiança. Havia a possibilidade de deixar o nome dela como candidata na convenção. Se você não quiser sair tudo bem, disse. Mas se você resolver pela candidatura, está aprovado o seu nome na convenção. E assim ficou.
Emília - O nome estava aprovado na convenção, mas eu não era candidata.
Antonio Belinati - Então, faltando três semanas para a eleição, eu fiz uma surpresa e lotei aqui a sala dos amigos mais íntimos da Emília e todos com o argumento que ela devia sair candidata. A gente organizou alguns jantares, ao invés de comício, porque eu acho que o custo é mais barato. Reuníamos em média de 1.000 a 1.200 pessoas em cada evento desses. E muitas pessoas iam ao jantar até para fazer chacota. ‘‘É, vamos no jantar, vamos ouvir a mulher do Belinati falar.’’ Evidente que a gente fazia um acompanhamento e quase a totalidade das pessoas que iam ao jantar, inclusive aqueles que estavam ali para fazer chacota, saía com a melhor das impressões e fazendo uma multiplicação de apoios. Tanto é que, em três semanas de campanha, nós elegemos a Emília.
Folha - Nós notamos que a senhora ficou um pouco chateada em não ter seu nome confirmado numa candidatura ao Senado neste ano. A senhora ainda vai insistir nesta candidatura, já que em 2002 serão abertas duas vagas no Senado para o Paraná?
Emília - A gente criou uma expectativa em grande parte da população e de lideranças do Paraná, na possibilidade de ir para o Senado. Eu tenho sim vontade de ser candidata ao Senado e é lógico que isso vai depender de tudo que vai acontecer daqui até as próximas eleições, inclusive com a mudança da legislação eleitoral.
Folha - Pela história política do Paraná nos últimos anos, notamos a formação de pelo menos dois grupos políticos fortes: um da capital e outro do interior, principalmente de Londrina. O senhor acha que agora é a vez de Londrina assumir o governo do Estado? É a vez dos Belinati?
Antonio Belinati - Há muito tempo nós temos sido motivados a disputar uma eleição para governador. Estes dias, eu estou saindo de uma churrascaria em Ponta Grossa e está chegando um carro com gente que eu nem conhecia, nem consegui ver a placa direito. ‘‘Olha você tem que ser o próximo governador.’’ Eu fui a Maringá agora, na inauguração da Rádio CBN e políticos, que eu não sei o nome e nem a tendência, numa cidade que eu nunca fiz política, me disseram ‘‘o senhor tem que ser nosso governador’’. Na minha maneira de entender, o povo não está muito interessado em votar em candidato porque ele é daqui ou dali. Mas, muito mais na proposta. Eu creio que o eleitor preferencialmente não vota no candidato porque ele é feio ou bonito, porque ele é bom ou mau orador, porque ele é rico ou pobre, ou aquele chavão que alguns bobocas usam muito na campanha: ‘‘Eu sou pai de seis filhos; aqui está enterrado meu pai, o meu avô.’’ São detalhes que não interessam para o eleitor. O eleitor tanto pode votar num banqueiro para o Senado, como pode votar para uma pessoa de baixíssima renda para ocupar um altíssimo cargo. O que a gente vê é uma vontade, de pessoas que conhecem nosso trabalho, que sejamos candidato.
Folha - Quantos nomes existem hoje em condições de buscar uma candidatura ao governo do Estado?
Antonio Belinati - Eu tenho para comigo que, hoje, existem quatro nomes, antes mesmo da posse de Jaime Lerner para o novo mandato e portanto faltando ainda quatro anos para a eleição. Dos quatros nomes um será governador. Cássio Taniguchi (prefeito de Curitiba pelo PFL), Rafael Greca (ex-prefeito de Curitiba e deputado federal eleito pelo PFL), Álvaro Dias (ex-governador e senador eleito pelo PSDB), e o meu nome. Entretanto, eu tenho que ser bem realista porque um dos quadros mais difíceis é o meu, em termos de viabilizar a candidatura. Mesmo que eu possa entrar até com alguma chance, eu tenho que ver primeiro se vai ou não vai ter reeleição para prefeito. Não tendo reeleição para prefeito pode até facilitar uma eventual preparação de uma candidatura minha a governador. Mas eu acho que é um extremo casuísmo contra todos os prefeitos do País, porque se tem reeleição para todos os níveis, qual a razão para impedir que apenas prefeitos disputem a reeleição? Este é um aspecto.
Folha - E qual seriam os outros?
Antonio Belinati - Havendo reeleição, fica para mim também complicado. Primeiro, porque é um tremendo vestibular. Eu tenho que entrar numa disputa de reeleição com um único compromisso: eu só posso entrar para ganhar a eleição. E nós sabemos que uma disputa é uma disputa. E de repente você pode disputar com um azarão e ele acaba ganhando. E sendo reeleito vem outro problema: nesse caso compensa, com apenas 15 meses de mandato, você renunciar (para disputar o governo)? Como é que a opinião pública reagiria? E outro obstáculo que eu tenho é que o Jaime Lerner tem o projeto dele, que é ser presidente da República. Ele saindo para concorrer, a Emília automaticamente é guindada ao posto efetivo de governador, não mais em exercício. Automaticamente estou impedido de qualquer tipo de disputa no mesmo pleito. Vamos aguardar com tranquilidade, mas eu tenho este grande sonho de ser governador, é um projeto meu.
Folha - Antonio Carlos, você está começando sua carreira política como deputado. Onde você quer chegar?
Antonio Carlos - Primeiro eu quero cumprir os quatro anos do mandato...
Antonio Belinati - (interrompendo o filho) Papai não está tão velho assim como você anda insinuando aí. Ele já está de olho na cadeira do papai. Calma que eu não estou tão cansado, né?
Antonio Carlos - ...Já declarei em público o apoio à reeleição do prefeito Antonio Belinati se houver a reeleição para prefeito. Esse é um dos compromissos de campanha que assumi para o ano 2000 (risos). Mas evidente que hoje eu quero primeiro cumprir da melhor maneira possível o nosso trabalho como deputado estadual. Temos um mandato aí que pode ser muito produtivo pela votação que a gente teve, pela responsabilidade que a gente tem com o nosso Estado. Procurei concentrar minha campanha nos municípios da região porque quando encerrar as atividades da semana na Assembléia eu vou poder estar em Londrina e dar assistência aos municípios. Não quero cair no erro de muitos que a gente vê de não voltar para agradecer e dar satisfação ao eleitor...
Antonio Belinati - (nova interrupção) E ele nem tirou férias. Ganhou a eleição e já foi agradecendo aos eleitores.
Antonio Carlos - Cheguei a fazer num dia 14 municípios. Ouvi até gente dizendo nunca viu candidato já eleito voltar ao município para agradecer...
Antonio Belinati - (de novo interrompendo) Aliás, desculpe. Um dos conselhos que dei para o Antonio Carlos foi que ele nunca tenha preguiça de trabalhar. O povo não gosta de político preguiçoso.
Emília (em defesa do filho) - Preguiça ele nunca teve. Não precisa nem dar esse conselho, né, Antonio Carlos?
Antonio Belinati - Político preguiçoso tem carreira curta.
Folha - Antonio Carlos, onde você quer chegar?
Antonio Carlos - Em 2002 com a tranquilidade de pedir voto novamente porque terei feito um trabalho que correspondeu à expectativa de quem me elegeu.
Antonio Belinati - Desculpe interromper (novamente!), mas o Antonio Carlos pautou a campanha dele com base eleitoral próxima para dar assistência permanente.
Folha - Antonio Carlos, a Prefeitura de Londrina está nos seus planos para o futuro?
Antonio Carlos - Pode ser consequência de um trabalho.
Emília - Eu, pessoalmente, acho que o futuro depende do que você faz, como exerce seu mandato como deputado.
Antonio Carlos - É como a seleção brasileira. A equipe titular tem sincronia, mas será que vai ser o time do Brasil daqui a quatro anos? Nesse meio tempo podem surgir várias outras revelações que não estavam previstas. É preciso trabalhar de acordo com o momento político.
Antonio Belinati - Eu tenho o dom da profecia. Sou um profeta leigo e na minha profecia, na minha intuição, antes mesmo de passar pela convenção do partido, quando eu anunciei que o Antonio Carlos seria candidato, eu profetizei que ele ainda vai ser prefeito de Londrina. E a intuição indica que ele deverá chegar a outros cargos que o pai não conseguiu atingir na carreira política. Acho que ele vai ter uma carreira brilhante pela frente.

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